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Leia o texto de apresentação da obra ‘A Lua do Oriente e Outras Luas – Biografia e Seleção de Poemas de Jamil Almansur Haddad’

A Lua do Oriente e Outras Luas refaz, em análise pioneira, o percurso biográfico e intelectual de uma personalidade das mais singulares da cena cultural brasileira. Jamil Almansur Haddad foi considerado por muitos poeta menor, subversivo, pornográfico. Manteve relações ambíguas com a Semana de Arte Moderna e a Geração de 45. Christina Stephano de Queiroz toma o poeta Jamil da perspectiva do brasileiro filho de imigrantes libaneses e o devolve à historiografia literária como um brasileiro em busca de uma identidade. Autor de difícil classificação, a etiqueta que talvez melhor lhe convenha é a de poeta maldito. Saiba mais sobre o livro no site da Ateliê Editorial (CLIQUE AQUI).

Leia a seguir o texto de apresentação da obra, escrita por Michel Sleiman – poeta, editor, tradutor e professor de Língua e Literatura Árabes na Universidade de São Paulo.

Jamil Almansur Haddad

APRESENTAÇÃO

“O Caixeiro-viajante da Poesia”, codinome que Jamil Almansur Haddad conferiu para si mesmo, posiciona entre nós o poeta — psiquiatra, crítico literário e ilustre tradutor também — como um filho de pais libaneses que, chegados ao Brasil, exerceram de imediato o ofício de vendedor ambulante. Que mercadorias imateriais levou a seus fregueses a malinha de miudezas do poeta Jamil? Que tecidos imaginários entregou a seus leitores a veia poética desse instigante filho de imigrantes? Jamil moldou, em boa medida, nosso gosto literário com suas traduções como a primeira integral de As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, e por outro lado ainda encantou setores da cultura francesa com seu livro de inspiração islâmico-cheguevariana, publicado em Paris, Avis aux Navigateurs: Le Premier Livre des Sourates.

Não comerciante, não industrial ou homem da política, mas poeta e tradutor também do árabe, língua que tanto falava como escrevia, Jamil flertou com as histórias e motivos de As Mil e Uma Noites, do chiir (poesia) árabe, do Alcorão e entregou-os, dúcteis, em língua luso-brasileira, ao lado de dezenas de outros livros seus, entre ensaios, poemas autorais e traduções. Personalidade intelectual de difícil classificação, a concepção de modernidade de Jamil fez ouvidos moucos ao vanguardismo da Semana de 22 e descolou ainda dos poetas da Geração de 45, operando uma versão de antropofagia cultural algo diferente, carregada — talvez demais — de um gosto europeu e médio-oriental algo finissecular, traço nele renitente não obstante o avanço do século xx. Até pelo menos o golpe militar de 1964, Jamil animou com sua singularidade a cena cultural brasileira, a partir da capital paulistana; publicou em jornais e editoras centrais do país, presidiu um clube literário, escreveu ensaios críticos e organizou antologias de poetas estrangeiros e brasileiros. De súbito, o poeta se cala — autoexila-se? E progressivamente cai no esquecimento.

Este estudo de resgate, ao mesmo tempo biográfico e literário, é uma primeira prospecção de conjunto na obra de Jamil Almansur Haddad e parte exatamente do cenário resumido linhas acima; descreve e dá a conhecer a evolução da prática literária de Jamil através de conexões que a autora estabelece entre pontos biográficos do poeta — tirados de registros e relatos de familiares, amigos e colegas de ofício — e interpretações sobretudo de suas criações literárias e, com menor frequência, mas não em menor grau de importância, de suas ações como crítico e tradutor de literatura. Para isso, a autora localiza três ciclos no percurso intelectual do biografado: um primeiro compreendido entre o nascimento e os anos 1940; um segundo ciclo que chega até os anos 1950; e, finalmente, o terceiro que alcança a morte do poeta em 1988.

Christina Stephano de Queiroz toma o poeta Jamil da perspectiva do brasileiro filho de imigrantes libaneses e o devolve à historiografia literária como um brasileiro autor em busca de uma identidade. Que a tenha encontrado ele, os estudos literário e antropológico, e de outros saberes, que se espera iniciem agora a partir do contar deste livro, terão a missão de demonstrá-lo. Que a tenha encontrado ela, o leitor o dirá.

O livro em mãos reflete o texto da tese de doutorado defendida por Christina em 2017, que lhe rendeu o merecido Prêmio Tese Destaque USP 2018. É pelas mãos competentes dessa jovem e brilhante pesquisadora que se dá o encontro de Jamil com a nova geração.

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