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Pedro Garcez Ghirardi: “Ariosto, como todos os clássicos, oferece descobertas a cada geração que o lê” – Confira uma entrevista com o tradutor de ‘Orlando Furioso’

Foram mais de dez anos de intervalo entre os Tomos I e II, traduzindo os 38.576 versos, distribuídos em 4.822 oitavas-rimas por 46 cantos, que o premiado professor Pedro Garcez Ghirardi se debruçou nos escritos de Orlando Furioso, clássica obra, publicada em 1516, do poeta italiano do século XVI Ludovico Ariosto. A conclusão dessa labuta literária será publicada neste ano pela Editora Ateliê em coedição Editora Unicamp – as duas já haviam editado o Tomo I anos atrás e que foi vencedor do Prêmio Jabuti de melhor tradução. O segundo volume, como no primeiro, será bilíngue e terá as ilustrações de Gustave Doré.

A literatura de Ariosto é vasta, mas a sua obra mais famosa é o poema Orlando Furioso. O texto alcançou grande sucesso. Nele, o poeta ridiculariza a nobreza feudal em decadência, ao mesmo tempo que prenuncia a chegada da Renascença. Orlando Furioso junta-se aos monumentos de “Palmeirim de Inglaterra”, dos quatro volumes do Bom Pantagruel, de François Rabelais, de Tirant lo Blanc e da Divina Comédia já editados pela Ateliê.

Em uma entrevista para o Blog da Ateliê, o titular de Literatura Italiana e professor de Língua Italiana na FFLCH há mais de trinta anos, Garcez Ghirardi comentou um pouco sobre o processo ambicioso de traduzir a obra, o motivo que o levou a trabalhar com o texto de Ariosto,  a distinção no processo de tradução entre um volume e outro, a importância do poema do autor italiano para a cultura mundial e por que ler Orlando Furioso nos dias de hoje. Confira a entrevista abaixo:

ATELIÊ EDITORIAL: Professor, para início de conversa, como surgiu para você a possibilidade de traduzir o clássico de Ariosto?

PEDRO GARCEZ GHIRARDI: A ocasião foi a sala de aula. O entusiasmo da juventude pela obra de Ariosto, nas aulas de Literatura Italiana, convidava a tentar levá-la a um público mais amplo. 


AE:
Como foi o processo de tradução de Orlando Furioso?

PGG: Em geral, o processo remoto desta tradução se confunde com algumas preferências pessoais, como a leitura constante dos clássicos. Em particular, o que se procurou (não sei com que êxito) foi conduzir o trabalho técnico a resultados que permitissem vislumbrar algo da beleza inigualável do original.  


AE:
Poderia destacar o trabalho que os dois tomos tiveram para você? Consegue distinguir o processo entre um volume e outro? Já que teve um intervalo de anos entre os dois livros.

PGG: Nesse período as circunstâncias mudaram: o primeiro tomo podia beneficiar-se da riqueza do diálogo em sala de aula; o segundo, posterior à aposentadoria, teve, em compensação, o estímulo de leitoras e leitores, que relembro com gratidão  Mas o trabalho em si teve o mesmo ritmo, sempre absorvente, a ponto de fazer do tradutor quase colega do eremita da ilha deserta, que surge no final do poema. Hoje gostaria de rever algumas soluções, corrigir pequenas falhas de minha revisão e acrescentar uma ou outra nota – mas não sei se isso ainda será possível. 


AE: Como professor de Literatura Italiana, poderia apontar a importância da obra de Ariosto para a cultura mundial?

PGG: Falar da importância de Ariosto é lembrar leitores como Cervantes, Voltaire e Borges, ou artistas como Vivaldi e Ingres, que se inspiraram em seu poema. Dois obstáculos impediram que o Orlando Furioso tivesse ainda maior difusão, um deles paradoxal: estupenda musicalidade do original italiano (que faz empalidecer qualquer tradução). O outro foi a interpretação até há pouco predominante, que “sequestrava” o tema central do poema:  a loucura, presente desde o título. 

AE: Por que ler Orlando Furioso hoje?

PGG: Neste ano de centenário de Italo Calvino, bastaria remeter às páginas em que o grande escritor contemporâneo nos faz ver a atualidade do poema. Pode-se acrescentar que em poucos, como em Ariosto, encontramos a percepção de algo muito presente na consciência de nosso tempo: a relatividade das perspectivas, individuais ou sociais,  e a necessidade de convivermos com generosidade, apesar de nossos contrastes. Com a generosidade que tantas vezes se manifesta no sorriso e no humor, sempre tão presentes em sua obra. Mas, enfim, Ariosto, como todos os clássicos, oferece descobertas a cada geração que o lê. 

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Ludovico Ariosto (1474-1533) foi poeta italiano. Filho de um membro do tribunal de Ferrara, estudou Direito, abandonando a carreira para dedicar-se à poesia. Estudou os poetas latinos e a composição de seus versos. A obra de Ariosto é vasta: Poesias Líricas Latinas (1493/1503), Sátiras, peças de teatro etc.

Sua obra mais famosa é o poema Orlando Furioso, que seria a continuação de uma obra anterior de Matteo Maria Boiardo intitulada Orlando Enamorado. O poema, composto de 46 cantos em sua versão final, alcançou grande sucesso, por ocasião de sua publicação. Nele, o poeta ridiculariza a nobreza feudal em decadência, ao mesmo tempo que prenuncia o novo homem da Renascença. 

Além do seus aspectos sociais, a obra consegue unir um enredo fantástico a uma versificação harmoniosa. Narra uma série de episódios que derivam de épicos, romances e poesia heroica da Idade Média, destacando-se três histórias nucleares à volta das quais as outras se formam: o amor de Orlando por Angelica – a de maior importância; a guerra entre cristãos (liderados por Carlos Magno) e mouros (liderados por Agramante) perto de Paris – que constitui o cenário épico para toda a narrativa; e o amor entre Rogério e Bradamante – uma cortesia literária em honra da família Este, que se supõe descendente daquelas duas personagens. 

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