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ENTREVISTA: Marta Neves fala sobre seu novo livro ‘Filha, Sobrinha, Mulher, Cadela Mesmo’

A Ateliê Editorial publicou recentemente o novo livro da artista plástica e escritora mineira Marta Neves. Intitulado Filha, Sobrinha, Mulher, Cadela Mesmo, o livro, que faz parte da Coleção LêProsa, traz uma escrita que assunta o mundo, fareja as palavras, não elege assunto, desfila papo, instiga.

Os textos reunidos na obra, cada qual com a sua história, surpreendem de um jeito cão e, de repente, uma lambida na fuça, desfilam graça e abanam o rabo para as convenções. Marta Neves escreve como quem tem faro, tem instinto literário e estabelece diálogo entre mundos. Sua atuação de décadas nas artes plásticas e o trabalho com a imagem associada à palavra dão pistas da genuína habilidade de aguçar imaginações frente ao texto.

Em entrevista, a autora contou sobre o processo de criação dos contos, como a sua atuação nas artes plásticas a influenciou na escrita, a elaboração dos textos e muito mais.

Marta Neves, nascida em Minas, é escritora e artista plástica, carreira na qual atua há muitos anos, usando mídias diversas: de impressões em pratos de louça a intervenções urbanas. Seu trabalho na 31ª Bienal de São Paulo foi apresentado essencialmente com palavras, em narrativas estruturadas como microcontos. Integra o coletivo Academia TransLiterária, produzindo oficinas culturais, performances e textos literários. Publicou, em 2021, o livro 3 Barrigudinha 10 Real, pela nunc edições de artista.

 

PERGUNTA: Marta, como foi a ideia para a criação do livro?

RESPOSTA: Um ponto tem ganhado cada vez mais relevância no que eu escrevo: meus contos tratam de pessoas, principalmente ou quase integralmente mulheres, desprovidas de realizações fabulosas, dominadas por um desamparo visceral, da adolescência à velhice, em suas existências ordinárias, quer dizer, cheias do absolutamente banal.

A mulher assassinada e transformada em notícia momentânea pras crianças do bairro, notícia passageira, mês que vem ninguém se lembra mais, a senhora que não consegue o conforto da aposentadoria ou a que perdeu o conforto do próprio corpo na velhice têm, pra mim, um encantamento do que é esquecido, jogado pra escanteio, sentido profundamente por cada uma delas e ignorado por todos em volta. Além disso, atravessando os textos, aparecem, dialogando com essa solidão, cadelas, baratas, um leão e até um pinto (filho da galinha), sinalizando o quanto de animais a gente guarda nos silêncios cotidianos, os silêncios de quem é mal remunerada de afeto e de bolso (não sei falar de madames). Foi a partir desse núcleo de interesses que organizei o livro.

As escolhas e escrita dos contos, poderia explicar o seu processo?

Gosto muito de fazer experimentações com a forma na escrita. Não se trata apenas de encontrar um bom assunto e compor o texto a partir dele. O bom assunto, na minha opinião, pode render uma bela reportagem jornalística, mas não gera, necessariamente, um produto literário. Daí penso muito em me desafiar com proposições e restrições, como escrever, por exemplo, obedecendo à estrutura de uma ocorrência policial, ou exigir de mim mesma que o texto seja feito só de perguntas, ou que seja feito usando um vocabulário funcional, coerente, mas inventado por cães (caso do conto “Dia de sol”). Gosto também de jogar com ideias: uma ideia é apresentada, depois cortada por outra, depois mais outra; a seguir, a primeira ideia é retomada, combinada com a segunda e com a terceira, numa espécie de colagem – e nisso a composição dos contos tem a ver com as ilustrações que eu montei a partir do recorte e recombinação de imagens diversas.

Dessa maneira tento dar densidade ao que me chama atenção em volta, uma vez que as “desculpas” que encontro pra escrever vêm de circunstâncias às vezes muito sem graça pra maioria das pessoas: a observação de uma vizinha atravessando a rua, a reportagem sobre um lugar distante postada na rede social, o questionário médico que tive de responder quando meu pai estava na UTI. Vejo um movimento por trás do que são quase nulidades cotidianas, um movimento que diz do que é difícil e vital, embora escondido no que é aparentemente coisa nenhuma.

Com um trabalho respeitado nas artes plásticas, o que a fez começar na literatura? A artista e a escritora se encontram no momento da escrita?

Tenho um bocado de poemas de bastante tempo atrás. Alguns bons, reconheço. Nunca foram publicados em livro e, com os anos, acabei diluindo a escrita nos trabalhos visuais, fui misturando as duas coisas. Tornou-se constante o cruzamento entre palavra e imagem no meu percurso como artista plástica. Esse foi o jeito que encontrei, acredito, de conciliar os dois desejos: lidar com a imagem e com o texto.

Mas o trato com a palavra pura acabou ganhando destaque mais recentemente, o que pode ter acontecido pela própria saturação que a gente vive dentro do espaço da criação, na vontade (e um tanto de angústia também) de ampliar nossas possibilidades discursivas. Comecei a escrever, a frequentar oficinas literárias, publiquei pela nunc edições de artista e não parei mais.

Quem lê meus textos costuma dizer do caráter visual que eles têm. Admito que nem sempre eu calculo criar uma experiência visual dentro de um conto. A coisa simplesmente acontece e deve ser pela minha maneira de lidar com o que me circunda. De toda forma, a noção de jogo com o texto, de recorte e colagem, de apropriação de elementos vindos de qualquer fonte possível e de observação da vida mundana são totalmente coerentes com meu percurso dentro das artes plásticas.

O escritor Marcelino Freire, organizador da Coleção LêProsa, fez o convite a você para publicar na Ateliê Editorial. Poderia falar da importância dele para que Filha, Sobrinha, Mulher, Cadela mesmo viesse a público?

O Marcelino não é só importante pra esse livro acontecer, mas por me fazer acreditar que vale a pena seguir em frente, teimar em escrever. Aliás, alguns dos contos dessa publicação vieram de oficina literária que ele ministrou. A partir de oficinas que fiz com ele, vieram amizades com outros escritores com quem mantenho contato através de um clube de reuniões periódicas on-line, quando lemos e discutimos nossos textos. Lógico que existe o aspecto solitário do ato da escrita, a vida inteira é um isolamento bem ou mal acompanhado. Mas o Marcelino desmistifica isso de que o escritor é quase um pária. A gente pode se juntar e conversar sobre literatura, a gente pode se estimular com exercícios trocados entre colegas, de modo que dá pra acreditar que a literatura não é apenas um cara sozinho mandando ver com as palavras. Ela também é chance de encontro.

Marcelino Freire, escritor e organizador da Coleção LêProsa, da Ateliê Editorial

Vi o convite que o Marcelino Freire me fez pra publicar o livro como um prêmio. Pra que existem prêmios, afinal? Antes de likes no Instagram, fama, dinheiro, antes dessa palavra de exceção que é “sucesso” (a vida nem é sucesso, a vida é o fracasso de todos os dias), antes de tudo isso, afinal, um prêmio deve ser um incentivo, uma declaração de que você vale a pena de alguma maneira. O Marcelino me deu esse prêmio, essa chancela. E a Ateliê também, por me acolher.

Com uma linguagem ligeira e de oralidade original, como o olhar de escritora trabalha para a elaboração das histórias do livro?

Acho que não é preciso uma forma complexa e hermética pra se escrever bem. Obviamente há escritores com uma linguagem nada marcada pela oralidade, de uma erudição fantástica, que enriqueceram e enriquecem a literatura mundialmente. Ler esses autores é aprender história, filosofia, geografia, cinema, até matemática. Isso é de uma beleza imensa.

No que me diz respeito, tenho plena consciência de não fazer parte desse panteão. Trabalho capturando e remodelando as coisas comuns, percebendo nelas, assim como tenho feito na minha trajetória de artista visual, suas surpresas estéticas. Então, como escritora, coleto frases, expressões, modos de andar, cacoetes e miudezas rotineiras de quem vejo por aí.

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