O propósito da edição de ‘O Cantar de Roldão’
O Cantar de Roldão é, consensualmente, o mais belo e o mais antigo dos cantares épicos preservados nas línguas românicas: “A mais antiga e também a mais bela [gesta]”. Rememorando, outrossim, as palavras de Léon Gautier, este é o mais célebre dos cantares de gesta e o mais belo monumento da epopeia francesa. Apesar disso, no Brasil essa obra encontra escassa difusão, enquanto na Europa se mantém concebida como um texto de leitura necessária, destinado tanto aos estudos superiores de filologia românica como aos cursos secundários.
Não obstante a sua ausência nas nossas bibliotecas escolares e universitárias, é inconteste a afirmação de que O Cantar de Roldão inaugura a longa tradição carolíngia europeia que notoriamente também está enraizada, suo modo, em nossa cultura popular: na perene pugna entre mouros e cristãos nas pantomimas e festivais que têm lugar nos recônditos do Brasil, e na voz do cantador sertanejo, pois como percebeu o invulgar etnógrafo Luís da Câmara Cascudo, “não conhecer a História de Carlos Magno era ignorância indesculpável, indigna dos bardos sertanejos, mesmo analfabetos”.

A dramática batalha que vitimou Roldão e toda a retaguarda francesa nos altos cumes do Pirineu navarro é o enredo do cantar que, em boa medida, repousa nas historiografias preservadas, ainda que nem sempre consensuais entre si; muitos outros aspectos, no entanto, pertencem à mais pura ficcionalidade.
Após a reflexão que segue acerca de quase dois séculos de estudos debruçados sobre o cantar e após a experiência com o próprio poema, aqui transcrito na língua original, traduzido ao português, anotado e comentado, confiamos que o leitor compartilhará desta impressão: a de que as mais poéticas e belas passagens que se destacam nos seus 4 002 versos são protagonizadas pela ficção. As disputas entre Roldão e Oliveiro, o combate singular entre Carlos Magno e Balalão, a morte da Bela Alda, são exemplos disso.
Assim, não desmerecendo o valor histórico do poema, é inequívoco que o valor poético o fundamenta. Inerente à sua poeticidade, aliás, muito se discutiu ao longo do século XX sobre o que hoje está assentado como outra característica fundamental dos cantares de gesta, que é o seu pretendido caráter oral. Mais do que essa presunção inicial, já é comum serem apontados os índices de oralidade desses cantares, sobretudo a partir de sua evidente estrutura formular. Isso nos permite afirmar que uma leitura que passe por alto dessa dimensão oral e desses aspectos formais do gênero épico é um equívoco epistemológico.
Não é sem desalento que percebemos, contudo, que as mais canônicas edições e traduções de , desde o descobrimento do mais antigo manuscrito em 1832, operam por uma sorte de apagamento dessa dimensão, na medida em que prescindem de alguns traços de oralidade ainda passíveis de encontrar no texto, como a métrica, a rima e o ritmo.
Uma interessantíssima imagem desse fenômeno nos oferece Henri Meschonnic, quando compara a tradução com o barqueiro. Importa para ele menos o atravessar do que o estado em que chega aquele a quem atravessou; Caronte, conclui Meschonnic, atravessa os mortos que, no trajeto, perdem a memória. Aqui compartilhamos, pois, da tarefa que o linguista propõe: não traduzir o que dizem as palavras, mas o que elas constroem, recriar o sentido – posição que nos coloca um grande desafio, o desafio filológico ao qual se lança a personagem borgiana, no célebre conto Pierre Menard, Autor del Quijote: “Seguir siendo Pierre Menard y llegar al Quijote, a través de las experiencias de Pierre Menard”, diante do que, sentencia a personagem tradutora: “Mi empresa no es difícil, esencialmente […]. Me bastaría ser inmortal para llevarla a cabo”.
Assim, ler hoje O Cantar de Roldão requer já uma operação filológica; traduzi-la, com este mínimo pressuposto, requer, mutatis mutandis, lançar mão ora de ressignificações oblíquas, ora de anacronismos, como veremos nestes estudos introdutórios; mas cantar, enfim, um canto épico requer emular o trovador que, revestido de espírito heroico, declinou as glórias do cavaleiro e sua espada e as legou à posteridade.