A Lenda Como Utopia Social – Uma Rapsódia Teórica – Por João de Jesus Paes Loureiro
A abertura de rodovias cortando a Amazônia na segunda metade do século passado deu início a uma nova forma de integrar a Amazônia, esse lugar estratégico ao mundo, em uma das mais agressivas ocupações de fronteira. Uma integração que custou e ainda custa muito caro e que deixa atrás de si um cenário de devastação: grilagem de terras, violência no campo, invasão de terras indígenas e de reservas ecológicas, desrespeito às culturas locais e aos povos que há milhares de anos a protegem.
Estes são apenas alguns dos tópicos em torno dos quais Marcos Colón reuniu dezoito pesquisadoras e pesquisadores da Amazônia de várias áreas com o objetivo de provocar nos leitores e na sociedade uma reavaliação. Aos autores foi lançado o desafio de responder à questão: o que é preciso ser feito para manter a diversidade socioambiental amazônica? Quais utopias se fazem necessárias para garantir o presente e o futuro da maior floresta tropical do mundo?
As respostas que ele reuniu estão no livro Utopias Amazônicas (Ateliê Editorial, 2025). Na obra, cada pensador amazônida – por nascimento ou adoção – apresenta seu diagnóstico crítico sobre o modelo de ocupação da região e como eles se relacionam com os planos de “desenvolvimento” da Amazônia. Os autores compartilham suas utopias e apresentam como a própria Amazônia pode salvar a si mesma, se a permitirem. Cada um deles, a partir da polifonia das vozes ribeirinhas, extrativistas, indígenas, quilombolas com as quais dialogam em suas pesquisas nos revela como é possível unir os milênios de sabedoria ancestral com tecnologias sociais e nos convidam a ajudar a transformar sonho em realidade e proteger um dos principais territórios naturais do planeta.
Leia a seguir o texto A Lenda Como Utopia Social – Uma Rapsódia Teórica, de João de Jesus Paes Loureiro:

A Lenda Como Utopia Social – Uma Rapsódia Teórica
Por João de Jesus Paes Loureiro
Uma situação cultural de interpenetração entre real e imaginário, semelhante ao efeito provocado pelo maravilhoso épico nas epopeias, em que história e imaginário mítico são por esse modo interpenetrados. Trata-se de uma surrealidade cotidiana, instigadora do devaneio, na qual os sentidos permanecem atentos e atuantes, porque é próprio desse estado psicológico manter a consciência ativa.
Dependendo do rio e da floresta para quase tudo, o homem usufrui desses bens, mas também os transfigura. Essa mesma dimensão transfiguradora preside as trocas e traduções simbólicas da cultura, sob as estimulações de um imaginário impregnado da viscosidade espermática e fecunda da dimensão estética entendida como percepção produto de uma relação contemplativa que vê na aparência um momento essencial da essência no ato de se entregar ao prazer cotidiano dessa contemplação. É necessário atentar-se para o fato de que a contemplação estética e o modo estético de percepção acontecem naturalmente no homem, do camponês ao filósofo, do canoeiro ao crítico de arte.
A transfiguração do real pela viscosidade ou impregnação do imaginário poético acentua a passagem entre os fatos cotidianos e sua estetização na cultura. Promove-se a valorização de formas autoexpressivas da aparência, nas quais o interesse de quem as observa está concentrado. Interesse atraído pelo prazer da contemplação da forma das coisas marcadas pela ambiguidade significante da função estética.
A função estética é um dos componentes da plurivalente relação da coletividade humana com o mundo. Nessa condição, e no âmbito de uma sociedade como a da Amazônia, ainda sem as grandes pressões do utilitarismo funcional da sociedade de consumo, mas já inscrita nesta, o homem encontra seu lugar e espaço propiciador a esse devaneio poetizante, quando ainda situado em um meio ambiente resguardado das destruições, quando o locus de relações com a natureza fluvio-florestal, lembrando a expressão de Orlando Valverde, poderá se perder. Ou que já está em processo de desaparecimento.
Na sociedade amazônica, é pelos sentidos atentos à natureza magnífica e exuberante que o homem se afirma no mundo objetivo, e é por meio deles que aprofunda o conhecimento de si mesmo. Essa forma de vivência, por sua vez, desenvolve e ativa a sensibilidade estética. Os objetos são percebidos na plenitude de sua forma concreto-sensível, forma de união do indivíduo com a realidade total da vida, numa experiência individual que se socializa pela mitologia, pela criação artística, pelas liturgias e pela visualidade. Experiência sensorial que é essencial à vida amazônica, pois representa qualidade complementar à expressão de sentimentos e ideias, concorrendo para criar uma unidade cultural no seio de sua sociedade geograficamente dispersa. Esse comportamento vai satisfazendo as necessidades mais íntimas do espírito e alargando suas potencialidades, num processo em que os homens seguem evoluindo, renovando-se, transformando-se.
A paisagem fluvio-florestal amazônica, composta de rio, floresta e devaneio, é percebida pelo homem como dupla realidade: imediata e mediata. A imediata, de função material, lógica, objetiva. A mediata, de função mágica, encantatória, estética. A superposição dessas duas realidades se dá à semelhança do que acontece com o vitral atravessado pela luz: ora o olhar se fixa nas cores e formas; ora na própria luz que o atravessa; ora em todas essas simultaneamente.
Ver, portanto, não significa apenas ter olhos. Significa “olhar”. O olhar que não está diretamente relacionado com o olho. Mas como dom de perceber, de compreender, de abrir os sentidos. Ao mesmo tempo revela que além do olhar há vários olhares. Há o olhar físico e o olhar da intuição. O olhar físico é descobridor das coisas. O olhar da intuição descobre o que está imanente nas coisas. O que vem submerso na realidade. O seu mistério.
É importante compreender a valorização cultural ontológica do olhar na Amazônia. O olhar que, como janela da alma, também introverte na alma a paisagem exterior, recobrindo-a com uma capa de afetividade. O olhar fascina, seduz, mata, encanta, fecunda, aterra, confunde, fulmina, mundia e provoca o brotar de epifanias. Traduz necessidade ontológica insaciável.
Encantado com a natureza, o homem amazônico vai tornando-a encantada e admirável. Com naturalidade imprime-lhe sua marca determinante na paisagem, configurando-a ainda mais bela e distinta do mundo físico cotidiano. Ultrapassando o patamar do sensível dos sentidos, o homem constrói suas paisagens modelando, cenarizando a realidade no seu devaneio, geografizando seus sonhos. Sonhador da paisagem, para usar uma expressão de lavor bachelardiano, tem nessa paisagem um pressuposto de sua vida e a condição ambiental da cultura.