Com a Palavra n.44: Pesquisador explica as personagens de ‘Senhora’, de José de Alencar
Publicado por José de Alencar em 1875, Senhora tem seu enredo construído a partir de um motivo aparentemente muito comum, a oposição entre casamento por amor e casamento por dinheiro, criando, assim, uma das personagens femininas mais interessantes da literatura da época. A Ateliê Editorial agora traz ao público uma nova edição do romance para a admirável coleção Clássicos Ateliê.
Com o estudo introdutório do Prof. Jefferson Cano, que também fez a apresentação e notas do romance Inocência, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, na Coleção Clássicos Ateliê, volume oferece uma interpretação do romance e as notas explicativas tornam mais acessível ao leitor atual esse clássico da literatura brasileira.
A coleção Clássicos Ateliê tem como objetivo revisitar os cânones da literatura de língua portuguesa, adicionando comentários de críticos especializados com textos introdutórios, ilustrações e notas.
Neste número do Com a Palavra, os assinantes leram um trecho do texto introdutório assinado por Jefferson Cano.
Danação e Redenção no Mundo das Mercadorias – por Jefferson Cano
Quando Senhora foi publicado, em 1875, trazia por nome de autoras iniciais G. M. Isso não significa, no entanto, que a autoria do romance fosse um segredo, pois José de Alencar vinha usando esse pseudônimo desde a década passada. Na verdade, Senhora era o terceiro romance a trazer na capa as mesmas iniciais e o mesmo subtítulo, Perfil de Mulher, que estavam presentes também em Lucíola (1862) e Diva (1864), sendo o primeiro aquele que apresentou ao leitor a personagem G. M., uma velha senhora a quem era contada a história do romance. Em resenha publicada no jornal A Reforma, o redator diria que dos três romances da série era Senhora o perfil mais desenvolvido e verdadeiro.
A personagem a que se referia o título era Aurélia Camargo, moça que, após ter vivido seus primeiros dezoito anos de vida na miséria, é surpreendida por uma herança que a coloca entre as mais ricas da Corte. De posse de sua inesperada fortuna, Aurélia atrai com um vultoso dote um antigo namorado que a desprezara, do qual se vinga escarnecendo o aviltamento a que chegara, vendendo-se. O primeiro traço que salta aos olhos neste enredo é obviamente o tema do casamento por interesse, que, por sua vez, se insere em um quadro mais amplo de crítica, no qual Alencar tratou repetidamente da mercantilização das relações sociais.
[…]
No entanto, o que torna esse romance extremamente rico é a maneira como a oposição entre amor e interesse se desdobra em outras contradições que se constroem em torno dos significados sociais assumidos pelas personagens e expressos por meio de suas características individuais. Por um lado, encontramos a família Seixas, chefiada, desde a morte do pai, pelo filho mais velho, Fernando, a quem caberia, pelo menos em tese, zelar pelo sustento e bem-estar de sua mãe e irmãs mais novas. Ao contrário, porém, do que se esperaria, Seixas é uma personagem de caráter fraco, volúvel, incapaz de esforços mais penosos e constantes, que vive para o luxo dos salões e teatros. Dessa maneira, ele vive em contraste com sua própria família, a mãe e duas irmãs, que lutam pela sobrevivência com trabalhos de costura, enquanto Seixas entrega-se aos dispendiosos prazeres de que sua vida social é cheia. De outro lado, quando Aurélia nos é apresentada, no início do romance, já é órfã de pai e mãe, vivendo em companhia de uma velha parenta. Até pouco antes, ela vivera em companhia da mãe, numa vida retirada, feita dos trabalhos de costura e da espera de um casamento, assim como ocorria na casa de Seixas. Pedro Camargo, o pai de Aurélia, era filho natural de um rico fazendeiro e se apaixonara por Emília, moça de uma família pobre e também órfã de pai, encabeçada pelo irmão mais velho, Manuel Lemos.
Dessa maneira, o primeiro elemento a ser notado na composição dessa trama é a ausência da figura paterna nos principais núcleos de personagens. Tanto o pai de Seixas quanto o de Aurélia encontram-se mortos quando o romance se inicia. Seixas pode ser considerado um indiscutível fracasso como chefe de família, pois quase leva à miséria as três mulheres que tinham nele o único amparo. Pedro Camargo, o pai de Aurélia, era mesmo em vida uma figura ausente, outro fracasso em assumir o papel da autoridade paterna. Por fim, Lemos, o tio de Aurélia, exerce uma autoridade destituída de qualquer senso moral, uma vez que se move apenas pelo interesse.