Com a Palavra n.45: Tradutor explica seu livro de poemas
O célebre tradutor Jaa Torrano, que deu à Ateliê Editorial as traduções dos sete volumes da Coleção Tragédias de Sófocles, apresenta agora seus poemas em Solidão Só Há de Sófocles, também lançada pela Ateliê Editorial.
O título, segundo o escritor Marcelo Tápia, “ecoa não apenas o só da natureza humana, mas o insere, por meio do nome do grande dramaturgo, no contexto da tragédia grega. Essa condição inevitável do ser mortal – desvelada assombrosamente na obra de Sófocles – aparece como possível fulcro desta reunião de livros de poemas de um poeta grego nascido no exílio do tempo”
E continua: “Se a tragédia grega era um espetáculo político, por focalizar aspectos da pólis, incluindo-se o poder e a conduta humana, a criação de Jaa Torrano – que tem dedicado sua vida à literatura da Grécia Antiga e a sua tradução, notadamente do teatro trágico – exerce um papel mediador entre o mundo mítico da Antiguidade e o contexto contemporâneo, apresentado em suas dimensões humana e política a partir de uma visão de passagem entre dois universos”.
Neste número do Com a Palavra, os assinantes leram o texto do prefácio do livro, em que Jaa Torrano explica a criação e desenvolvimento do livro.
PREFÁCIO – por Jaa Torrano
Ao concluir o estudo e a tradução poética, metódica e sistemática de todas as tragédias que nos chegaram completas de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, guiado pelo gosto de sinopse, intitulei minhas três sequências de poemas anteriormente publicadas “Trilogia Ecstática” reunindo em ordem inversa à cronologia “Divino Gibi”, “A Esfera e os Dias” e “Satori Story”, e então lhes acrescentei “Barbárie Br” dando ao conjunto o título Solidão só há de Sófocles entendido como Tetralogia Itinerante.
Este percurso desde “Satori Story” – primeira sequência recolocada como quarta – até “Barbárie Br” – quarta alocada como primeira – vai de “Ecstática” a “Itinerante”, onde “Itinerante” é o percurso pelos dias imprevisíveis que Zeus envia nascidos da Noite imortal, e “Ecstática” implica tanto atemporalidade quanto contemporaneidade com diversas tradições culturais heteróclitas revisitadas e vistas com um misto de simpatia e ironia. Mas ao chegar em “Divino Gibi”, a orientação se torna precipuamente helenocêntrica, abre-se a perspectiva da visão de mundo trágica, e a temporalidade irrompe com poemas datados pela referência de acontecimentos cotidianos e políticos. Já “Barbárie Br” descreve a perplexidade e as incertezas do prólogo, párodo e primeiro episódio da tragicomédia apresentada em anos recentes no cenáculo político nacional.
Em “Barbárie Br”, a necessidade imediata de responder cotidianamente às injunções impostas pela chegada ao poder das forças tragicômicas encontra uma primeira reposta no refúgio na intemporalidade, na qual esse “in” da intemporalidade é ambíguo, significando tanto “privação” quanto “internação”. Tanto se recusa a aceitar o espetáculo representado nos jornais, quanto se debruça na tentativa de compreender as causas e consequências dessa inopinada e incontornável irrupção do tempo mais hórrido que jamais suspeitado. Ao se recusar o incontornável é que se dá o retorno ao atemporal; ao se empenhar em compreender é que se dá a razão do poema.
Toda forma de pensar é por metonímia uma forma de pensar o mundo. Para pensar a situação geopolítica em que nos encontrávamos, servimo-nos dos elementos e da dinâmica próprios do imaginário mítico documentado na produção literária grega clássica, fazendo com esses elementos e com essa dinâmica o nosso jogo de pensar (o mundo), como se ainda hoje pudéssemos ler o mundo tal como o liam os gregos contemporâneos do Teatro de Dioniso. Assim talvez possamos descobrir onde e como nos desencontramos de nós mesmos e de nossas próprias referências.