Com a Palavra n.50: Marcelino Freire fala sobre os 25 anos de ‘Angu de Sangue’
Há 25 anos, o premiado escritor pernambucano Marcelino Freire publicava, pela Ateliê Editorial, o seu primeiro livro de contos, Angu de Sangue.
A obra mostrou uma narrativa inovadora sobre o cotidiano e trouxe personagens que formaram vozes marcantes na literatura contemporânea brasileira, um dos exemplos é Muribeca.
Também vale destacar os contos que apontaram a potência de escrita de Marcelino Freire: Belinha, Mataram o Salva-Vidas, Socorrinho e, claro, o texto que leva o nome do livro.
Nesta edição especial do Com a Palavra, que chega ao seu número 50, os assinantes poderão ler com exclusividade uma entrevista com Marcelino Freire sobre os 25 anos de Angu de Sangue.
Na conversa, o autor explicou sobre a importância de seu primeiro livro para a sua trajetória literária, o processo de escrita da obra, os parceiros que o ajudaram a publicar o exemplar, as ideias dos contos, como foram as construções dos personagens, a edição feita pela Ateliê Editorial e muito mais.

PERGUNTA: Marcelino já são 25 anos da sua estreia nos contos, com a obra Angu de Sangue. O que você pode contar sobre esse tempo e o que este livro comemorativo lhe ofereceu na sua trajetória literária?
RESPOSTA: Eu me lembro do dia em que cheguei, indicado por João Alexandre Barbosa, para conhecer o editor Plinio Martins Filho pessoalmente. Eu estava nas mãos com o original do livro de contos Angu de Sangue. O livro já estava diagramado e com fotografias de Jobalo compondo o livro. Plinio topou fazer o livro do jeito que pensamos. É que o livro iria sair de forma independente, até a chegada e indicação de João Alexandre. O livro saiu naquele mesmo ano, em novembro do ano 2000. Uma semana antes do lançamento o livro saiu uma matéria e entrevista comigo na Folha de S. Paulo, um destaque todo especial. Depois dessa matéria na Folha, o livro saiu em todos os grandes jornais do país. Foi o “Angu” que me pôs no mundo da literatura, diziam que estava surgindo ali uma voz diferente, um jeito sertanejo outro, uma oralidade marcante…
Ainda recorda do processo de escrita do livro? As ideias dos contos, as escolhas dos temas, das narrativas, da disposição deles na obra?
Alguns dos contos eu havia escrito ainda no Recife. Outros foram escritos em São Paulo. O Angu de Sangue só foi possível de ser escrito porque vim morar em São Paulo. Tem muito nele da poluição e da solidão de São Paulo. A linguagem também, de alguns contos, ganhou uma certa “ferocidade”. O conto que abre o livro, o “Muribeca”, eu havia escrito pensando na comunidade em que morou o poeta Miró da Muribeca. O conto “Belinha” eu escrevi também no Recife, pensando em uma amiga minha Eugênia Menezes. Há um conto chamado “J.C.J.” que escrevi a partir de um assalto que vi em um dos semáforos de São Paulo. “Angu”, que é uma comida nordestina, virou um “Angu de Sangue” em contato com a cidade de São Paulo, onde vivo desde 1991.
Para além das palavras, o livro traz fotos feitas pelo artista Jobalo e projeto gráfico de Silvana Zandomeni. Essa mistura artística trouxe uma experiência imersiva a cada página de Angu de Sangue. Como foi a ideia para essa parceria.
Jobalo foi um grande amigo e uma de minhas grandes influências. O título Angu de Sangue foi ele quem me deu. Jobalo, que faleceu no ano passado, é pernambucano e era poeta e era artista plástico. Chamá-lo para o trabalho foi uma maneira de manter ativa a nossa ponte afetiva de criação. Aquelas fotos foram especialmente feitas para o livro a partir de radiografias de partes do corpo humano. Não sabia eu que aquela estética está até hoje nos meus livros: tem muitos ossos no que eu faço. E tem sangue e tem vestígios arqueológicos… Silvana Zandomeni também foi fundamental. Ela quem fez a direção de arte, deu a cara do livro. Grande parceira!
João Alexandre Barbosa e Plinio Martins Filho foram fundamentais para a publicação do livro. Como foi essa relação sua com esses dois ilustres pensadores?
O escritor Evandro Affonso Ferreira tinha um sebo chamado “Sagarana”. Conheci Evandro em uma de minhas andanças pelo bairro da Vila Madalena em São Paulo. Evandro me convidou para participar de um grupo de leitura que ele mantinha. Foi ele quem levou o crítico João Alexandre em um dos encontros. Lá eu li o conto “Muribeca” e João Alexandre adorou. Daí ele me indicou para a Ateliê Editorial. Foi quando conheci o Plinio que já havia recebido uma ligação do João Alexandre endossando o meu trabalho. Até hoje eu e Plinio somos parceiros e amigos e sempre celebramos a memória do grande mestre que foi João Alexandre. Devo a esses dois tudo o que sou.
O Marcelino de hoje mudaria algo em Angu de Sangue, 25 anos depois?
Com certeza eu mudaria. Um final de um conto, alguma frase equivocada. Quando sair uma edição completamente nova do Angu de Sangue, eu vou lá ver o que preciso alterar, quais ingredientes desse “Angu”, dosagens desse “Angu” eu devo alterar. A importância hoje de muitos movimentos nos faz pensar, repensar, abrir um diálogo permanente com outras visões de mundo, ampliar essas visões. Recentemente, foi feita uma novíssima edição do meu livro RASIF publicado em 2008 pela Editora Record. Mudei lá contos, derrubei duas histórias. Acho bom que eu pense assim. É sinal de que eu não envelheci mal. Sempre aprendendo, sempre apreendendo…