Com a Palavra

Com a Palavra n.66: Autores destacam a importância de Dante na cultura mundial

O Meu Dante reúne escritos de diversos intelectuais brasileiros sobre o poeta italiano Dante Alighieri. Se Italo Calvino dizia que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, os sete séculos de distância entre nós e o autor da Divina Comédia testemunham a riqueza das leituras geradas pelo mestre florentino, também em solo brasileiro.

A obra, organizada por Maria Ceclia Casini, apresenta os textos de Haroldo de Campos, Alceu Amoroso Lima, Edoardo Bizzari, Alfredo Bosi, Hilário Franco Júnior, Marco Lucchesi, Ugo Giorgetti, entre outros.

O primeiro Com a Palavra de 2026 selecionou três trechos dos textos de consagrados autores e pesquisadores. Os textos trazem a importância do autor da Divina Comédia na vida e trajetória acadêmica de cada um.

DANTE E A POESIA DE VANGUARDA

Por Haroldo de Campos

A tradição é uma coisa aberta. Ezra Pound, o poeta que, em nossa época, tem perseguido mais de perto a persona de Dante, ensinou aos poetas como transformar o passado em algo novo (make it new), como tirar dele nutrição para o impulso criador. A vanguarda literária, tal como a compreendo, envolve uma interpretação crítica do legado da tradição, através de sua ótica integrado no presente e feito contemporâneo. Não artefato de museu (para a contemplação), mas objeto linguístico vivo, para uso produtivo imediato (para a ação).

 

LITERATURA ITALIANA NA UNIVERSIDADE E A PARTIR DA UNIVERSIDADE

Por Alfredo Bosi

Poesia não era representação das instâncias políticas contemporâneas do poeta, o que afastava com uma penada toda crítica puramente ideológica, de centro, direita ou esquerda, tida por reducionista. É a doutrina que norteia o ensaio de Croce sobre poesia e não poesia na Divina Comédia, la Poesia di Dante, que distingue a estrutura teológica e política da obra separando-a dos momentos líricos nos quais Dante dá voz às suas grandes figuras. Poesia verdadeira se encontraria nos cantos justamente célebres de Francesca da Rimini, de Cavalcanti, de Ugolino, de Ulisses… O que não fosse poesia como liricidade Croce chamava, curiosamente para nós outros, de “estrutura”…

 

MEU DANTE

Por Alceu Amoroso Lima

O meu Dante da mocidade, portanto, já era um Dante humano,  bem humano. E depois que o reencontrei, na idade seguinte, ainda era o Dante em sua humanidade que me impressionou. Não mais o dos amores juvenis frustrados violentamente pela morte prematura de sua amada, mas o das grandes paixões políticas. O que então me assombrou foi descobrir naquela obra, que passara pelos séculos desprendida do autor, vivendo por si própria, como a Odisseia ou a Eneida, o que me impressionou foi nela descobrir a pessoa do próprio autor.

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