Entrevistas

Entrevista: João Leonel fala sobre o processo de organização do livro ‘Evangelhos, Literatura e Recepção’

A Ateliê Editorial acaba de lançar a obra Evangelhos, Literatura e Recepção, organizada pelo professor João Leonel. O livro traz para o leitor uma forma de compreender  a Bíblia de forma abstrata. Ou seja, cada autor convidado para assinar os capítulos do volume reflete sobre tradições, memórias, personagens e metáforas que os textos sagrados proporcionam. A grande virtude de Evangelhos, Literatura e Recepção é colocar em diálogo teorias e metodologias analíticas, como também, e principalmente, apresentá-las lado a lado em um exercício de complementaridade.

A obra apresenta uma pluralidade de importantes teólogos brasileiros e estrangeiros que apresentam em seus textos experiências individuais e coletivas, seja pelo caminho exegético, seja pelo uso de teorias literárias, ou pelos mais recentes estudos sobre recepção, contribuindo para os estudos dos evangelhos canônicos.

Em uma entrevista ao site da Ateliê Editorial, Leonel sobre a análise acadêmica nos textos religiosos, o processo de organização do livro, a escolha dos autores, o olhar exegético em cima dos Evangelhos e os estudos literários da Bíblia no academicismo.

PERGUNTA: Professor, poderia começar esta entrevista abordando as diferenças e, claro, quais são os diálogos em torno dos dois livros que o senhor organizou e publicou pela Ateliê Editorial: Bíblia, Literatura e Recepção e Evangelhos, Literatura e Recepção?

JOÃO LEONEL: A semelhança entre os títulos é uma opção intencional. Desejo que eles sejam vistos em relação de afinidade e de continuação teórica e temática.

As identidades se constroem a partir de um único conceito básico e de abordagens teóricas semelhantes. O conceito diz respeito à compreensão de que a Bíblia participa do cânon literário universal. Isso não significa menosprezar sua origem em contextos religiosos, mas em assumir, como primeira grandeza, o fato de que a Bíblia é um texto que possui características e virtudes literárias que a fazem participar da produção literária universal.

As questões teóricas se referem à análise da Bíblia como literatura e em possíveis diálogos. Nas duas obras são apresentados capítulos com análises literárias de textos bíblicos indicando, de forma prática, a viabilidade e os resultados de compreender a Bíblia como literatura. A relação da Bíblia com a literatura, em Bíblia, Literatura e Recepção, indica com a Bíblia tem sido influente na produção ficcional do Ocidente, com uma diversidade de diálogos entre elas.

Os textos sobre a recepção de textos bíblicos, por meio da influência da Estética da Recepção, deve ser salientada, pois traz uma contribuição única para esse tipo de estudos da Bíblia no Brasil.

As diferenças entre as duas obras consistem basicamente em que a primeira aborda toda a Bíblia e a segunda apenas os evangelhos canônicos. E também que em Bíblia, Literatura e Recepção temos um bloco sobre a relação entre Bíblia e Literatura, que falta em Evangelhos, Literatura e Recepção que, em seu lugar, traz uma seção sobre a exegese dos evangelhos.

P: Abordar os textos religiosos como análise acadêmica, para o senhor, é sempre desafiador? E como foi essa trajetória de pesquisa para o livro Evangelhos, Literatura e Recepção?

JL: Sim, é sempre um desafio, embora eu já faça esse tipo de pesquisa há mais de vinte anos. É um desafio acadêmico na medida em que me cobro a fazer análises relevantes, que contribuam com o avanço dessa área de estudos em nosso país. E é um desafio que se projeta para além da academia, visando a popularização da abordagem por meio de produções escritas, palestras e vídeos.

A ideia do livro começou com a consciência de que Bíblia, Literatura e Recepção precisava de um companheiro, um complemento. Nesse sentido, Evangelhos, Literatura e Recepção também me convida para outras especificações. Por exemplo, talvez um “Salmos, Literatura e Recepção”, ou mesmo um “Apocalipse, Literatura e Recepção” seriam bem-vindos.

Como acontece geralmente, a ideia sobre o livro foi compartilhada com outros colegas de meu grupo de pesquisas, NEBIL (Núcleo de Estudos Bíblia e Literatura, CNPq) e, a partir da acolhida da ideia, contatos foram feitos e outros colegas (do Brasil, Portugal, Espanha, Alemanha e Holanda) aceitaram participar da obra.

Próximo passo foi a escolha da editora. Como o prof. Plínio já havia publicado Bíblia, Literatura e Recepção, eu o procurei e ele foi muito receptivo. A possibilidade de publicar novamente pela Ateliê foi algo maravilhoso.

P: A organização e escolhas dos autores, assim como os textos, como foram esses processos para Evangelhos, Literatura e Recepção?

JL: Como disse acima, começamos com os colegas do grupo de pesquisa. Nem todos puderam participar, por motivos variados. Em seguida, buscamos colegas de outras universidades e escolas teológicas com afinidade com o tema e as abordagens teóricas propostas para a confecção do livro. Por fim, eu queria que houvesse a participação de pesquisadores de fora do Brasil, que contribuíssem com os estudos que estavam ocorrendo em seus contextos. Alguns já eram meus conhecidos, outros foram indicados. Todos foram muito receptivos.

P: Para os dias atuais, como foi o olhar exegético em cima dos Evangelhos, de modo a trazer ao livro?

JL: Se você pergunta por abordagens exegéticas aplicadas a textos dos evangelhos no livro, o estudo por meio da “reoralização” dos evangelhos de Mateus e Lucas, pelo prof. Marcelo Carneiro (Universidade Metodista de São Paulo – UMESP), traz para o livro discussões contemporâneas que ocorrem no meio exegético dos EUA e Europa; a abordagem da “masculinidade e relações matrimoniais” no evangelho de Mateus, pela profa. Carmen Bernabé-Ubieta (Universidade de Deusto, Bilbau, Espanha), são muito pertinentes, tanto para o mundo de origem do texto de Mateus, quanto para as sociedades contemporâneas; o capítulo de Stefan Kürle (Theologisches Studienzentrum, Berlim, Alemanha) oferece aproximações atualizadas à linguagem das parábolas de Jesus no evangelho de Marcos; e o texto de Júlio Zabatiero (Faculdade de Teologia da Igreja Presbiter iana Independente do Brasil – FATIPI)  traz ao leitor uma relevante discussão de Marcos 1.14-15 a partir dos conceitos de “poder” e “subjetivação” que definem a resposta do ser humano à manifestação do reino de Deus, com contornos concretos e desafiadores à realidade brasileira contemporânea.

Portanto, os textos de víeis exegético do livro contribuem com o mundo da exegese brasileira com renovados olhares e leituras do texto bíblico.

P: Como o professor vê, atualmente, os estudos literários da Bíblia no academicismo?

JL: Em um período de quinze anos, posso dizer que tais estudos têm evoluído no Brasil. Seja pelo número de trabalhos acadêmicos, como dissertações, teses, e artigos; como também pela publicação de obras por editoras nacionais, como é o caso da Ateliê.

Parece-me que esse campo de estudos no Brasil é composto por uma maioria de exegetas que começaram a tomar conhecimento de teorias do campo das Letras e começaram a aplicá-las a textos bíblicos, e uma minoria de teóricos e críticos da literatura, linguistas e semiólogos que são atraídos pela beleza dos textos bíblicos e utilizam seus instrumentais de trabalho em tais textos. Há, ainda, pessoas com formação nos dois campos. É o meu caso, visto que tenho formação teológica e de letras na graduação, Ciências da Religião com concentração em estudos da Bíblia no mestrado, e formação em teoria literária no doutorado e história da leitura, no pós-doutorado. Meu campo de trabalho é a pós-graduação em Letras.

No contexto dos programas de pós-graduação em Letras ou em estudos literários brasileiros, ainda é pequena a presença dos estudos da Bíblia como literatura.

Que eu saiba, e espero que existam outros, o único programa de pós-graduação brasileiro com uma linha de pesquisa formal e com matérias e orientações nessa área é o programa de pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP, onde eu leciono e trabalho com leitura literária da Bíblia, relação entre Bíblia/religião e literatura e história da leitura protestante.

Por fim, vejo como muito promissores os caminhos dos estudos literários da Bíblia no Brasil.

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João Leonel possui graduação em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e em Letras pela Universidade Metodista de São Paulo, mestrado em Ciências da Religião com concentração em Bíblia, pela Universidade Metodista de São Paulo, doutorado em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas, pós-doutorado em História da Leitura pelo Centro de História da Leitura pelo Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa, Portugal. É professor no Seminário Presbiteriano do Sul e na graduação e pós-graduação em Letras, na Universidade Presbiteriana Mackenzie (atuando na linha de pesquisa: Literatura e Discurso Religioso). Coordena o Núcleo de Estudos Bíblia e Literatura (NEBIL, CNPq). Autor dos livros História da Leitura e Protestantismo Brasileiro (2016); Mateus, o Evangelho (2013); Bíblia, Literatura e Linguagem (2011, com Júlio Zabatiero), entre outros.

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