Com a Palavra n.43: Lêdo Ivo, Mário de Andrade e Mário Quintana e seus escritos em Poema em Prosa
Ateliê Editorial, em coedição Editora Unicamp, tem o privilégio de publicar a obra Antologia do Poema em Prosa no Brasil. Organizada pelo poeta e pesquisador Fernando Paixão, o livro traz uma seleção de mais de 200 textos de consagrados autores nos mais de 100 anos de literatura brasileira.
Fernando Paixão se lançou ao desafio de traçar as linhas de força desse tipo de escrita na poesia brasileira, do século XIX à atualidade. O resultado surpreende, pois revela um panorama diferente da conhecida tradição.
Modelo exaltado pelos poetas simbolistas, foi pouco praticado pelos modernistas e ganhou evidência com os autores da poesia marginal dos anos 1970, quando passou a frequentar sem protocolos os livros de poesia. No século XXI, entrega-se à autoironia e à fragmentação.
O livro é um capítulo especial da literatura no país. E oferece ao leitor a oportunidade de descobrir um território curioso do gênero, a mescla de prosa e poesia.
Neste número do Com a Palavra, os assinantes leram três escritos em poema em prosa de três célebres autores: Lêdo ivo, Mário de Andrade e Mário Quintana, que estão presentes no livro,
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O APANHADOR DE POEMAS, por Mário Quintana
Um poema sempre me pareceu algo assim como um pássaro engaiolado… E que, para apanhá-lo vivo, era preciso um cuidado infinito. Um poema não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito. Não, o grito é o que mais o espanta. Um poema, é preciso esperá-lo com paciência e silenciosamente como um gato. É preciso que lhe armemos ciladas: com rimas, que são o seu alpiste; há poemas que só se deixam apanhar com isto. Outros que só ficam presos atrás das catorze grades de um soneto. É preciso esperá-lo com assonâncias e aliterações, para que ele cante. É preciso recebe-lo com ritmo, para que ele comece a dançar. E há os poemas livres, imprevisíveis. Para esses é preciso inventar, na hora, armadilhas imprevistas.
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PORTO REAL DO COLÉGIO, por Lêdo Ivo
A ferrugem não é uma ofensa aos e objetos, mas o emblema de uma secreta realeza. O vento, a chuva e a areia sãos emissários de uma eternidade que só vive nos desgastes que fraturam a superfície das coisas.
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A MENINA E A CANTIGA, por Mário de Andrade
… trarilarara… trarila…
A meninota esganiçada magriça coma saia voejando por cima dos joelhos em nó vinha meia dançando cantando no crepúsculo escuro. Batia compasso com a varinha na poeira da calçada.
… trarilarara… trarila…
De repente voltou-se pra negra velhaque vinha trôpega atrás, enorme trouxa de roupas na cabeça:
– Qué mi dá, vó?
– Naão.
… trarilarara… trarila…