Morre Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura e autor do prólogo da edição da Ateliê Editorial de ‘Tirant lo Blanc’
Faleceu, na madrugada desta segunda-feira, 14 de abril, o escritor Mario Vargas Llosa, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. A morte foi anunciada nas redes sociais por seu filho, Álvaro, que não informou a causa. “É com profundo pesar que anunciamos que nosso pai, Mario Vargas Llosa, faleceu hoje em Lima, cercado pacificamente por sua família”, escreveu Álvaro. Vargas Llosa tinha 89 anos.
Nascido na cidade de Arequipa, no sul do Peru, em 28 de março de 1936, Vargas Llosa foi educado por sua mãe e seus avós maternos em Cochabamba (Bolívia) e depois no Peru. Após seus estudos na Academia Militar de Lima, obteve uma licenciatura em Letras e, ainda muito jovem, deu seus primeiros passos no jornalismo. Morou em 1959 em Paris e exerceu várias profissões, como tradutor, professor de espanhol e jornalista da Agence France-Presse.
No meio do século passado, juntamente com o colombiano Gabriel García Márquez, o argentino Julio Cortázar, e o mexicano Carlos Fuentes, fez parte do “boom latino-americano”, um fenômeno literário que tornou os jovens autores conhecidos em todo o mundo.

Em 1959 publicou seu primeiro livro de relatos, Os Chefes, com o qual obteve o Prêmio Leopoldo Alas. Depois, ganhou notoriedade com a publicação de A Cidade e Os Cachorros, em 1963, seguida três anos depois por A Casa Verde. Seu prestígio se consolidou com Conversa no Catedral (1969). Teve enorme sucesso com os títulos A Festa do Bode (2000) e Travessuras da Menina Má (2006).
Com suas obras traduzidas para 30 idiomas, Vargas Llosa foi prestigiado com os prêmios Cervantes, Príncipe de Astúrias das Letras, Biblioteca Breve, o da Crítica Espanhola, o Prêmio Nacional de Novela do Peru e o Rómulo Gallegos. Obteve a nacionalidade espanhola em 1993. O Nobel de Literatura veio em 2010.
Vargas Llosa foi o primeiro escritor a entrar na Academia Francesa sem nunca ter escrito nada em francês. Eleito pelos “Imortais” da Academia em novembro de 2021, o escritor hispano-peruano assumiu sua cadeira de número 18. Vargas Llosa foi aceito quase que por unanimidade pelos acadêmicos e foi recebido em sua posse, em 2023, pelo “protetor” da Academia, o presidente francês, Emmanuel Macron. O escritor também era membro da Real Academia Espanhola, assim como da peruana e sócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Seu último romance, publicado em 2024, foi Dedico a você meu silêncio, que contra a jornada de um homem que sonhou com um país unido pela música e enlouqueceu na tentativa de escrever o livro perfeito.

‘Tirant lo Blanc’ por Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa assinou o prólogo do volume, publicado pela Ateliê Editorial, de Tirant lo Blanc, obra-prima da cavalaria escrita por Joanot Martorelli, no século XV. Vargas Llosa disse ser o melhor leitor de Tirant (depois de Cervantes), apontando: “num romance. a procedência dos materiais de criação importa menos do que o uso que deles faça o autor; tudo depende do proveito que deles se tire, pois, na criação literária, o fim justifica sempre os meios”. Leia abaixo um trecho do prólogo de Tirant lo Blanc, escritor por Mario Vargas Llosa, que faleceu nesta segunda-feira, 14 de abril.
‘Tirant lo Blanc’: As Palavras Como Atos – Por Mario Vargas Llosa
Era eu jovem estudante de Letras, por volta de 1953 ou 1954, e meu professor de literatura espanhola liquidou com um punhado de frases ignominiosas (descobri mais tarde que as tomara de empréstimo a Marcelino Menéndez Pelayo) todo um gênero narrativo: os romances de cavalaria. Acusou-o de profuso, confuso, irreverente e às vezes até obsceno, dizendo-nos que passaríamos sobre ele como sobre brasas, em busca de livros mais preciosos. Meu espírito de contradição me arrastou à biblioteca para comprovar por mim mesmo se aqueles romances eram tão horríveis como meu professor os pintava: para minha boa estrela o acaso, disfarçado de bibliotecária, colocou-me nas mãos o Tirant lo Blanc, na admirável edição crítica de Martí de Riquer.
A leitura desse livro é uma das lembranças mais fulgurantes de meus anos universitários, uma das melhores coisas que me aconteceram como leitor e escritor de romances. Poucos livros me divertiram e excitaram mais e em poucos aprendi tanto sobre a ambição, as artes e os ardis em que estão forjadas as ficções. Por isso, quando me cabe responder sobre meus “modelos”, esses livros que todo escritor sonha secretamente emular, nunca deixo de citar, junto com romances como Guerra e Paz, Madame Bovary, Esplendor e Miséria de Cortesãs, Moby Dick ou Luz de Agosto, essa formidável criação do engenho e paixão literários que, para glória do gênero narrativo e orgulho da língua em que foi escrita, cumpre este ano, tão louçã e pujante como no dia em que se publicou, seus primeiros quinhentos anos de idade.
O d. Quixote carimbou com marca de desprestígio os romances de cavalaria da qual jamais se recuperaram. Mas isso não é culpa de Cervantes e sim de seus exegetas e comentaristas, ao decretarem que seu principal mérito fora enterrar toda uma corrente literária. Quando surgiu o d. Quixote, o romance de cavalaria, já decadente, tinha-se tornado estereotipado, monótono e perdera popularidade. A aparente sátira cervantina de seus exageros episódicos e embaraços estilísticos justificavam-se em parte. Mas destacava-se na tradição cavaleiresca bom número de livros de rica elaboração imaginativa e audazes arquiteturas que acabaram também sepultados, em ignóbil confusão, sob a lápide que, segundo seus intérpretes, plantou o d. Quixote sobre o gênero.
Na verdade, se algum livro, falando metaforicamente, enterrou o romance de cavalaria, foi o Tirant lo Blanc. Porque com o livro de Joanot Martorell o gênero alcançou seu apogeu e superou-se a si mesmo, numa ficção mais rica e mais complexa do que as convenções formais e os pontos temáticos do romance de cavalaria permitiam. Comparados com ele, todos os seus congêneres, ainda os mais bem realizados, como o Amadís de Gaula, parecem primitivos, meras antecipações da obra-prima catalã. O d. Quixote o menciona de maneira sibilina; chama-o, pela boca do cura, no célebre inventário da biblioteca de Alonso Quijano, primeiro “o melhor livro do mundo”, para depois afirmar que, por tê-lo escrito, mereceria que mandassem seu autor às galeras por toda a sua vida. Não há dúvida, porém, de que Cervantes conhecia o romance e lera também com proveito muitas manifestações desse gênero que, segundo confessou no prólogo da primeira parte de seu livro, quis ridicularizar.
O entusiasmo que me produziu o Tirant lo Blanc converteu-me, durante boa parte de minha juventude, em leitor empedernido de romances de cavalaria. Não me fundiram o cérebro como a d. Quixote, e sim me propiciaram, como a ele, ilusão e prazer aos cântaros (com alguns bocejos, é verdade). Não era fácil encontrá-los. Da maioria deles não havia edições acessíveis. Quando existiam, eram livros espantosos, em letras microscópicas, como a da Biblioteca de Autores Españoles, ou de papel transparente, como o respectivo volume da Aguilar, que ameaçavam deixar cego o heroico leitor. Era preciso ir buscá-los nas bibliotecas. O gelado casarão da Biblioteca Nacional de Madrid tinha magnífica coleção e, resfriados à parte, passei muitas tardes memoráveis lá, sumido entre as aventuras labirínticas dos Amadís, Espliandanes, Luisartes, Palmeirins e demais cavaleiros andantes. Para meu espanto, devido a algumas intemperanças dos textos, ou sabe-se lá por quê, certos livros de cavalaria, como o Lancelote, tinham sido confinados pela rigorosa censura do momento (refiro-me a 1958 e 1959) no Inferno da biblioteca. Para poder lê-los era preciso obter licença de uma autoridade eclesiástica.
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A continuação está na edição de Tirant lo Blanc publicada pela Ateliê Editorial (Clique aqui).