Com a Palavra n.48: ‘Filha, Sobrinha, Mulher, Cadela Mesmo’ – novo livro de Marta Neves
No final de junho, a Ateliê Editorial lançará o novo livro da artista plástica e escritora mineira Marta Neves. Intitulado Filha, Sobrinha, Mulher, Cadela Mesmo, o livro conta com um texto na orelha da capa escrito por Nívea Sabino.
Para Sabino, o livro é “uma escrita que assunta o mundo, fareja as palavras, não elege assunto, desfila papo, instiga. Os textos aqui reunidos, cada qual com a sua história, surpreendem de um jeito cão e, de repente, uma lambida na fuça, desfilam graça e abanam o rabo para as convenções”.
E continua: “Marta Neves escreve como quem tem faro, tem instinto literário. ‘Literatura cê vai fazendo à medida que se levanta’ e estabelece diálogo entre mundos. Aqui, a sua atuação de décadas nas artes plásticas e o trabalho com a imagem associada à palavra dão pistas da genuína habilidade de aguçar imaginações frente ao texto”.
“Para finalizar este convite para adentrar, trago a mesa de um bar, numa calçada qualquer de BH. Encontrar Marta Neves é demorar-se na leitura e apanhar gosto de frequentar. As suas narrativas fluem como as de contadores de histórias, toda prosa, companhia prazerosa que me fez correr por estas páginas e, lá pelo fim do livro, querer gritar:
– traga a saideira, Marta!
Não vou-me embora, quero ler mais”.
O livro foi editado por Plinio Martins Filho, com revisão do escritor Marcelino Freire, e design da Casa Rex, de Gustavo Piqueira.
Neste número do Com a Palavra, os leitores leram, com exclusividade, um conto presente no livro.
AMANHÃ É ONTEM – por Marta Neves
irmão,
não liga pro que eu falei outro dia no chat da live do dj, esquece isso. ninguém leu. aliás, eu leio umas coisas.
ontem mesmo li numa bandeira na rua: mulher e velha, lá no lema. só eu li, né? depois enxerguei o ordem e progresso. continua lá o escrito, país jovem, rapaz. é o seguinte: pega o recado que deixei no seu celular, você sai sem telefone, é uma merda. dei ração pro neném e pra pirula. devem reclamar nada mais por 24 horas. deixei grana perto do pc. desliga essa bosta se chover. desliga a tv, essa luz caríssima. olha, paga isso, por favor, atrasei, passou, pensei que vencia amanhã. puxa,
amanhã
é ontem.
tem dois reais na mesa da sala que você deve na esquina. a síndica reclamou do cacto fedendo, vê se tira a planta da porta, acho que morreu, será mulher? digo, o cacto.
será o cacto mulher? mulher e velha. o cadu ligou. não sei oque quer. dê retorno a ele. vê se limpa o filtro, a água sai com gosto estranho. paga a luz. se você quiser lanchar, tem pão seven boys em cima da pia. ah, a maria melhorou, disseram. olha, por favor, a geladeira, pode ter raio, chuva, acabou a doença?
da maria? liga pra filha, vê lá. mas não se cura também, na idade dela nenhuma mulher, quer dizer, o que a gente faz é só entre os 25 e os 40 anos, o resto é sobra. vigia a geladeira, vai chover, vai que queima. erraram seu e-mail, chegou pra mim uma coisa da oi. futuro, oi futuro? olha a oi, a geladeira, o futuro. não queimou antes, nunca queimou, não sei se. amaria, hein? é mulher e velha. eu também. leio coisas, invento de escrever no chat, na bandeira. abre lá o futuro, isso. o e-mail. volto depois, não sei, o brasil é jovem, afinal. big brother brasil.