Com a Palavra

Com a Palavra n.51: Pesquisadora escreve sobre ‘Tirant lo Blanc’

A Ateliê Editorial publicou recentemente a terceira edição de Tirant lo Blanc, revisada e em novo formato, agora integrada à Coleção Clássicos Comentados.

A obra foi traduzida a partir da edição integral catalã, publicada em 1947 aos cuidados de Martí de Riquer, por Cláudio Giordano, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Tradução em 1999 e conta com o prólogo do Prêmio Nobel de Literatura Mário Vargas Llosa.

Este romance épico, escrito por um rei valenciano em meados do século XV, é um clássico da literatura universal e influenciou Miguel de Cervantes, que o cita em Dom Quixote de la Mancha.

Narra as façanhas de um cavaleiro andante que se transforma em grande general. Dono de enorme força física, o protagonista é também um audaz e sentimental cortejador de sua dama.

Nesta edição do Com a Palavra, os assinantes poderão ler com exclusividade uma análise da pesquisadora Aurora Bernardini sobre o livro.

 

A Virtude Está no Meio – por Aurora Bernardini

Há pouco li o prólogo do escritor Mario Vargas Llosa, ao romance de cavalaria Tirantlo Blanc (Editora Ateliê, 2024) de Joanot Martorell (falecido em 1468, escritor e cavaleiro ele mesmo), considerado o primeiro romance moderno do Ocidente. Fiquei muito surpresa por sua opinião sobre o livro: “… é uma das lembranças mais fulgurantes de meus anos universitários, uma das melhores coisas que me aconteceram como leitor e escritor de romances” e por alguns trechos que ele reporta em que, ao lado do idealismo heroico e das irrealidades do amor cortês, há humor, teatralidade, e a sensualidade dos amores de Tirant e Carmesina  “que corre sob, sobre e entre palavras.”

Mas, folheando as quase 900 páginas do livro, embora traduzidas impecavelmente do valenciano (um dialeto do catalão) por Cláudio Giordano, diante da mole do livro, ia adiando a leitura. O que me decidiu, finalmente, foi a recente publicação de Mediocridade, outra obra de Giordano, agora como autor, que li de uma assentada só. Fiquei intrigada: o que teria em comum essa sua obra de certa forma autobiográfica e a meritória façanha de traduzir a alentada novela de Martorell?

Tirant lo Blanc é o herói da história. Seu pai foi senhor da Marca da Tirânia, que faz frente com a Inglaterra, e a mãe, de nome Branca, era filha do Duque da Bretanha. Na Inglaterra é sagrado cavaleiro e vence uma série de disputas com todos os outros. Ao ouvir que a ilha de Rodes é assediada pelos muçulmanos, arma um grupo de cavalheiros e os vence, passando pela Sicília onde testemunha o namoro entre Ricomana, princesa siciliana e Felipe, o príncipe de França, seu companheiro de armas.

Ali fica sabendo que os turcos assediaram Constantinopla e que o imperador bizantino pede socorro. Tirant reúne um exército e viaja para lá, derrotando os turcos. Ali conhece a filha do imperador, Carmesina, se apaixona e é correspondido, sendo – porém – vítima peripécias e de intrigas de uma dama da corte que lhe faz crer que Carmesina o trai. Retrai-se, injuriado, pensando em voltar à Inglaterra. Justo quando a intriga ia ser desfeita, uma tempestade leva seu navio ao Norte da África onde é aprisionado. Por seus méritos Tirant consegue converter mouros ao Cristianismo e reunir uma grande frota e, ao saber que os bizantinos são novamente assediados pelos turcos, volta a Constantinopla e os vence. O imperador bizantino, que sempre confiou nele, dá-lhe a filha em casamento, casamento esse cujo enlace já havia sido consumado clandestinamente entre os dois, graças à cumplicidade de Prazerdaminhavida, uma dama de companhia da princesa, muito ousada. O narrador acompanha os fatos e os feitos dos protagonistas até o fim de suas vidas.

“‘Eu amo’; depois disso, tudo é falação. (…) Nas várias tentativas amorosas  que viabilizam a engenhosidade e a vocação celestina de Prazerdaminhavida, Carmesina não para de falar (…) A incontinência verbal, o vício da loquacidade ataca todos por igual (…) são as palavras, mais do que as ações ou as personagens que constituem  a realidade básica da ficção, a sustentação do universo narrativo, essa atmosfera, substância e horizonte dentro dos quais se vão delineando os perfis dos heróis, suas proezas e debilidades, a graça de suas heroínas, a picardia de seus bufões, a ferocidade de suas mortandades.”

Se este foi o prisma pelo qual Vargas Llosa leu o livro – e o título de seu prólogo “As palavras como atos” o prenuncia, qual será o do tradutor, Cláudio Giordano

Conforme foi dito, e conforme justifica o poeta e crítico Alberto da Costa e Silva em seu ensaio “Marly de Oliveira: senhora do verso e do corte da estrofe”: “Em muitos poetas, o conhecimento de seus dias permite que se estabeleçam os vínculos entre as palavras e os fatos, e que melhor se alcancem certas metáforas ou encadeamento de situações que podem parecer arbitrárias no corpo do poema”. Ou seja, em muitos casos a biografia ilumina a obra.

Passemos, então, a esse livrinho biográfico que é o Mediocridade de Cláudio Giordano (Ed. Ateliê, 2025) e vejamos como ele coincide, em aspectos fundamentais, com o “livrão” Tirant lo Blanc que ele escolheu traduzir.

Em primeiro lugar, uma objeção quanto à Mediocridade que a extrema modéstia (ou, também, sutil provocação?) levaram Giordano escolher como título. Na famosa frase latina in medio virtus, o que está no meio é a virtude e não a mediocridade. Mas o que diz Giordano em seu livro?

À pergunta fundamental que ele se faz: O que vim fazer neste mundo? Giordano encontra resposta e estímulo em Maurice Druon (1918-2009) que lhe responde coma frase: Acredito simples e firmemente que todos que têm a graça e a honra de nascer têm a obrigação de realizar, na maioria das vezes à revelia, uma fração ínfima, mas insubstituível de um desígnio providencial. Ter consciência disso é uma bênção adicional.

Trata-se do mesmo conceito que Mikhail Bakhtin (1895-1975) havia sintetizado categoricamente um quarto de século antes, dizendo que cada um de nós é único e que cada um de nós deve responder por esta sua unicidade.

Muito bem. Mas como fazê-lo?

Giordano, em seu livro, busca subsídio numa série de personalidades, entre as quais o filósofo salvadorenho Vicente Alberto Masferrer Mónico (1868-1932) que, em seu ensaio sobre o que chamou de “doutrina do mínimo vital”, enumera – reduzidas ao mínimo – as necessidades primordiais, a saber:

.Trabalho higiênico, perene, honesto e remunerado justamente;

.Alimentação suficiente, variada, nutritiva e saudável;

.Habitação ampla, arejada, seca e ensolarada;

.Água boa e suficiente;

.Vestes limpas, corretas e de boa proteção;

.Assistência médica e sanitária;

.Justiça pronta, fácil e acessível a todos;

.Educação primária e complementar eficaz, que forme indivíduos completos;

.Indivíduos que sejam, ao mesmo tempo, cordiais e trabalhadores espertos e chefes de família conscientes;

.Descanso e lazer suficientes e adequados para restaurar as energias do corpo e do espírito.

Ora, muito bem. No capítulo CXLIII, central no livro de Martorell, que leva o subtítulo de “Conselho de Abdala Salomão ao capitão Tirant” encontra-se a complementação desse mínimo, que poderia ser chamado de “doutrina do máximo vital” dirigida já não aos simples trabalhadores, mas aos senhores. Aqui vai sua síntese:

.Afaste-se tanto da prodigalidade quanto da avareza;

.Partilhe todas as coisas com quem tenha certeza que é seu amigo.

.Aborreça a lisonja como ao veneno;

.Não rompas amizades antigas;

.Não se iluda ser amado por quem ele próprio não ame;

.Menospreze com altivez os maledicentes;

.A quem diz mentira acontece de não lhe acreditarem verdades;

.As grandes verdades não convivem com as pequenas mentiras;

.Pode castigar perdoando, que é a vingança mais nobre que jamais existiu;

.Seja ávido no recompensar, mas freie-se no punir.

Este é, de uma maneira geral, o decálogo que rege a conduta do nobre Tirant lo Blanc, em todos seus pensamentos e atos e, juntamente com decálogo do homem simples, é o que norteia o desígnio providencial do emérito livreiro / editor / memorialista / tradutor Cláudio Giordano.

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