Com a Palavra

Com a Palavra n.52: Ivan Teixeira escreve sobre ‘O Primo Basílio’

Há muito tempo fora de catálogo, a Ateliê Editorial reedita O Primo Basílio, obra-prima de Eça de Queirós, para a Coleção Clássicos Ateliê.

Eça de Queirós monta uma impressionante galeria de tipos neste que é um dos romances essenciais do realismo português. Luísa, mulher de formação romântica entediada com o casamento, envolve-se com o sedutor Basílio. Juliana, a empregada doméstica humilhada, descobre o caso e arma um esquema de chantagem.

O texto impressiona pelo vigor da sátira social e pelos usos singulares da linguagem. Nesta edição, Paulo Franchetti esclarece as dificuldades que a obra oferece ao leitor contemporâneo.

No olhar crítico de Ivan Teixeira, ensaísta e professor do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, falecido em 2013 e que muito contribuiu para a Coleção Clássicos Ateliê, escreveu sobre a obra do autor português.

Nesta edição do Com a Palavra, os assinantes poderão ler com exclusividade o texto em que o saudoso Ivan Teixeira escreveu sobre a edição da Ateliê Editorial de O Primo Basílio, de Eça de Queirós.

O Primo Basílio – por Ivan Teixeira

Não se pode esquecer que o subtítulo de O Primo Basílio (1878) é Episódio Doméstico. O que isso quer dizer? Quer dizer que Eça de Queirós estava interessado em traçar um retrato social da família, destacando o interior de uma casa típica da média burguesia lisboeta.

Evidentemente, para esse retrato genérico, o artista teve de se deter no exame pormenorizado dos indivíduos que compõem a família. Além dos proprietários (Jorge e Luísa), o romancista investiga os amigos que frequentam a casa: Conselheiro Acácio, Dona Felicidade, Dr. Julião Zuzarte, Sebastião e Ernestinho Ledesma. Há ainda duas pessoas indesejadas: a empregada Juliana e a quase prostituta Leopoldina. Talvez por serem indesejadas (uma por Luísa outra por Jorge) são exatamente essas criaturas que exercem mais influência nos destinos da casa. Há também os vizinhos, com sua intromissão incômoda e fofoqueira. A própria rua assume certa espiritualidade no retrato daquelas vidas.

Se Eça de Queirós fosse um romancista romântico, com certeza a empregada Juliana não teria tamanha importância na trama. Mas, como se apropriou de técnicas realistas, preocupa-se muito com a interferência do trabalho na organização da vida. Preocupa-se também com o sexo, de onde emana toda a agitação da personagem central. Em princípio, tanto o trabalho quanto o sexo deveriam ordenar a vida. Todavia, instauram o caos. É provável que Eça estivesse aludindo a uma possível imaturidade de Portugal no trato com o trabalho remunerado e com os prazeres do sexo. A Europa progredia a passos largos nessas matérias.

Mas Portugal continuava preso a padrões do passado; não se atualizava. O Manifesto Comunista é de 1845. Pode ser que Eça não o tivesse lido. Mas, com certeza, há influências das ideias marxistas na concepção geral do romance. Isso pode explicar a importância da empregada no enredo e no ambiente da narrativa. O pai do romancista, numa carta até há pouco inédita em Portugal e publicada no Brasil pela primeira vez na presente edição, procurou invalidar a rebeldia de Juliana, com o argumento de que os empregados eram tratados com doçura em Portugal. Não é o que se observa nas páginas de O Primo Basílio, em que os caprichos de Luísa se sustentam a poder do sofrimento de Juliana. Depois, vem a desforra.

Até há pouco tempo, a crítica punha em destaque a figura caricatural do Conselheiro Acácio. É verdade que Machado de Assis percebeu a força de Juliana, mas mostrou-se muito escandalizado com a presença do sexo na obra. Essa conquista da arte realista jamais foi bem assimilada pelo gênio das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Hoje, a inclusão desses problemas dá modernidade ao romance.

Todavia, nenhum desses aspectos teria importância, se Eça de Queirós não fosse um mestre do estilo e da narrativa. A língua portuguesa ganhou muita flexibilidade em suas mãos. Ele soube como poucos manejar a ironia, conduzida com agilidade e bom humor.

A adjetivação assume aspectos surpreendentes no livro, sobretudo nas passagens em que se incorporam técnicas da descrição impressionista, experiência que apenas se iniciava na literatura europeia. A frase do romance é predominantemente curta, insinuando preferência pela matéria prosaica e cotidiana da vida. A trama de O Primo Basílio é conduzida com a mesma mestria com que o autor conduz o estilo. Além do suspense e da rapidez decertas passagens, o autor soube espalhar inúmeros índices insinuantes ao longo da trama, como é o caso dos sapatos de Juliana, dos vizinhos de Luísa, do homem de cavanhaque do Passeio Público e da presença alusiva de Fausto.

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