Resenhas

Corpo-Utópico: território e dimensões de Gênero na Amazônia – Por Flávia Marinho Lisbôa

A abertura de rodovias cortando a Amazônia na segunda metade do século passado deu início a uma nova forma de integrar a Amazônia, esse lugar estratégico ao mundo, em uma das mais agressivas ocupações de fronteira. Uma integração que custou e ainda custa muito caro e que deixa atrás de si um cenário de devastação: grilagem de terras, violência no campo, invasão de terras indígenas e de reservas ecológicas, desrespeito às culturas locais e aos povos que há milhares de anos a protegem.

Estes são apenas alguns dos tópicos em torno dos quais Marcos Colón reuniu dezoito pesquisadoras e pesquisadores da Amazônia de várias áreas com o objetivo de provocar nos leitores e na sociedade uma reavaliação. Aos autores foi lançado o desafio de responder à questão: o que é preciso ser feito para manter a diversidade socioambiental amazônica? Quais utopias se fazem necessárias para garantir o presente e o futuro da maior floresta tropical do mundo?

As respostas que ele reuniu estão no livro Utopias Amazônicas (Ateliê Editorial, 2025). Na obra, cada pensador amazônida – por nascimento ou adoção – apresenta seu diagnóstico crítico sobre o modelo de ocupação da região e como eles se relacionam com os planos de “desenvolvimento” da Amazônia. Os autores compartilham suas utopias e apresentam como a própria Amazônia pode salvar a si mesma, se a permitirem. Cada um deles, a partir da polifonia das vozes ribeirinhas, extrativistas, indígenas, quilombolas com as quais dialogam em suas pesquisas nos revela como é possível unir os milênios de sabedoria ancestral com tecnologias sociais e nos convidam a ajudar a transformar sonho em realidade e proteger um dos principais territórios naturais do planeta.

Leia a seguir o texto Corpo-Utópico: território e dimensões de Gênero na Amazônia, de Flávia Marinho Lisbôa:

A crescente destruição do meio ambiente na Amazônia (bem como em outras fronteiras do capitalismo no mundo) tropeça nos territórios de povos originários e tradicionais, que têm historicamente protegido esses espaços como a materialidade de seus mundos alicerçados em diferenças cosmológicas, indissociáveis de suas práticas de existência. Nessa forma de se integrar à “terra”, a relação que se estabelece com a concretude da natureza não se dissocia do simbólico, reproduzido no modo de vida, no modo de ver o mundo, em como se relacionar com ele. Logo, defender o território das frentes liberais de exploração da terra significa proteger um mundo Outro construído em determinado espaço, como não seria possível construir ou replicar em outro lugar diferente.

Nesta reflexão, jogamos luz sobre a dimensão de gênero na luta pela proteção dos territórios ancestrais, intercalada pelo olhar e pela ação de mulheres negras e indígenas do sudeste paraense, na Amazônia Oriental, protagonistas na luta pela defesa de projetos para a concretização de “utopias” para uma sociedade equânime e em harmonia com a natureza. A partir das noções foucaultianas de “corpo utópico” e “heterotopias” é possível abordar a relação do território com o corpo de mulheres camponesas, quebradeiras de coco, indígenas, quilombolas, entre outras, que fortalecem paulatinamente seus espaços heterotópicos na resistência dos seus modos de vida vinculados à floresta, às águas e à terra. São mulheres que forjam suas trajetórias no confronto com o agronegócio, hidrelétricas, multinacionais da mineração e outros segmentos de commodities, cuja exploração inviabiliza a vida na Amazônia.

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FLÁVIA MARINHO LISBÔA – Doutora em Letras/Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Professora Adjunta da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), na Faculdade de Educação do Campo (Fecampo) e no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da UFPA. Vice-líder do Grupo de Estudo Mediações, Discurso e Sociedades Amazônicas (Gedai-UFPA) e membro do Laboratório de Contas Regionais da Amazônia (Lacam/Unifesspa). Tem experiência e interesse na área de Linguística/Análise do Discurso, na interface com a (de)colonialidade e estudos interseccionais, relações étnico-raciais e políticas de acesso e permanência para indígenas e quilombolas no ensino superior. Entre suas publicações está o livro Racismo Linguístico e os Indígenas Gavião na Universidade: Língua como Linha de Força do Dispositivo Colonial (EdUFBA-Salvador, 2022).

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