Notícias

Ilana Feldman sobre a antologia ‘O Cinema em A Paixão Segundo G.H.’: “Nestes anos, tanto o processo de realização do filme como o processo de construção do livro testemunharam importantes mudanças históricas no Brasil e no mundo”

Como filmar um romance, por princípio, “infilmável”, como ‘A Paixão Segundo G.H.’, de Clarice Lispector? Reunindo autores e autoras de distintas áreas, como teoria do cinema, crítica literária, artes e psicanálise, por meios de estilos diversos, do ensaio acadêmico à crônica autobiográfica, os quatorze textos que compõem ‘O Cinema em A Paixão Segundo G.H.’ constroem um panorama plural das relações entre a imagem e a palavra no filme ‘A Paixão Segundo G.H.’, de Luiz Fernando Carvalho.

Entre o olhar para a tela e o olhar para a página, as questões estéticas e políticas, raciais e de classe, humanas e inumanas, que animam a escritura do filme e a fatura do romance são nesta coletânea trabalhadas. Aqui, as contribuições de Eduardo Jorge de Oliveira, Ismail Xavier, Ivana Bentes, Luiz Carlos Oliveira Jr., Maria Cristina Franco Ferraz, Maria Esther Maciel, Marilene Felinto, Nádia Battella Gotlib, Paloma Vidal, Pedro Guimarães, Renato Tardivo, Ricardo Ianacce, Richard Miskolci, Ude Baldan e Cris Guzzi são inúmeras e transversais aos campos do saber, para além das fronteiras e caixinhas onde por vezes se confina o pensamento.

Para encerrar o volume, uma mesa redonda com o cineasta Luiz Fernando Carvalho, com a participação de críticos e pesquisadores como Carlos Alberto Mattos, Esther Hamburger, Flavia Trocoli, Ivana Bentes e Kamilla Medeiros, vem celebrar o movimento do diálogo circular, da palavra em trânsito, não fixada em certezas e dogmas de nenhuma natureza.

Ilana Feldman é pesquisadora, ensaísta e curadora independente. É professora adjunta da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da mesma instituição. Possui pós-doutorado em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). É doutora em cinema pela USP, com passagem pelo Departamento de Filosofia, Artes e Estética da Universidade Paris 8, com a tese Jogos de Cena: Ensaios sobre o Documentário Brasileiro Contemporâneo. Nos últimos anos, tem se dedicado a pesquisas em torno das relações entre testemunho, trauma e memória na paisagem cultural contemporânea, particularmente através do cinema e da literatura, explorando uma política da imagem e da imaginação. É organizadora do livro O Cinema em A Paixão Segundo G.H. (Ateliê Editorial, 2025).

Em entrevista, a organizadora Ilana Feldman fala sobre o processo de criação da antologia. Leia a seguir:

Cinema em A Paixão Segundo G.H., O - Imagem 1

ATELIÊ EDITORIAL: Poderia contar como se deu a ideia do livro?

ILANA FELDMAN: A ideia da organização do livro “O cinema em A Paixão Segundo G.H.” surgiu durante o processo de montagem do filme de Luiz Fernando Carvalho. Como eu fui curadora das oficinas teóricas para a preparação da equipe criativa do longa, oficinas que precederam as filmagens, o desejo de trabalhar as intercessões entre o cinema e a literatura, a imagem e a palavra, a criação artística e a crítica, já estavam plantados desde o início.

AE: Como foi a organização e escolha dos autores para a obra?

IL: A escolha dos nomes dos autores foi construída durante um longo processo, que teve início com a montagem do filme, em 2019, ainda antes da pandemia, e só foi finalizado em 2023. Nestes anos, tanto o processo de realização do filme como o processo de construção do livro testemunharam importantes mudanças históricas no Brasil e no mundo, o que também impactou, como não poderia deixar de ser, a escolha das linhas teóricas e das questões que eu gostaria que o livro tratasse.

AE: Para você, qual a representação que a antologia se entrelaça com o livro da Clarice Lispector e com o longa de Luiz Fernando Carvalho?

IL: Eu diria que a antologia “O cinema em A Paixão Segundo G.H.” pode ser vista, num primeiro nível, como uma mediadora de leitura muito potente entre o livro de Clarice Lispector e o filme de Luiz Fernando Carvalho. Mas, num segundo nível, ela vai até mesmo muito além, já que os próprios textos têm a sua autonomia. Por isso optamos por diferentes estilos textuais, do ensaio acadêmico à crônica autobiográfica.

AE: O que você propôs para cada autor convidado a escrever?

IL: As propostas ou sugestões de temas variaram muito de acordo com o perfil de cada pesquisador/crítico/escritor, que também tiveram toda a liberdade e autonomia para fazerem suas leituras.

AE: Para finalizar, a Ateliê Editorial é reconhecida pelo seu excelente trabalho no projeto gráfico. E na antologia não foi diferente. Poderia contar como foi para você o livro finalizado?

IL: O projeto gráfico do livro “O cinema em A Paixão Segundo G.H.” me surpreendeu muito por sua beleza e coerência estética tanto com o filme de Luiz Fernando Carvalho como com a primeira edição de “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice, publicado em 1964 pela Editora do Autor. A escolha das cores, do corte das páginas e do formato das imagens (que respeitam a janela do filme) está em profundo diálogo com as coordenadas estéticas do filme e do romance.

Deixe um comentário