Catulo & Horácio
R$ 130,00
A presente antologia, mais recente trabalho de Trajano Vieira, privilegia o aspecto poético dos textos. Não pretende espelhar automaticamente a sintaxe do original, nem adotar o dicionário como autoridade máxima no que concerne ao sentido das palavras. Procura ler o poema como fenômeno de linguagem, não como documento de língua. Muitos tradutores veem na obra clássica uma plataforma para comentários eruditos. O que se propõe realizar aqui se afasta dessa tradição filológica, apegada a uma espécie de crença na verdade literal. Ocorre que é possível manter a fidelidade através de um diálogo arejado com o original, que permita recuperar em outro plano, mesmo que parcialmente, certos efeitos poéticos. Nesse caso, fidelidade não se confunde com arremedo. Isso nada tem a ver com falta de rigor, antes o contrário, pois a atenção extrema à forma da expressão original é motivada justamente pelo rigor. Apenas que esta modalidade de rigor não veta o exercício da imaginação.
Catulo é um dos pioneiros da poesia coloquial no Ocidente. Ezra Pound considerou-o insuperável nesse campo. Jocoso, mordaz, irreverente, apaixonado, irônico, nenhuma dessas características esmorece o notável controle formal de sua dicção. É avesso ao estilo caudaloso, opta pela fluidez e concisão. Horácio, por sua vez, é um extraordinário compositor, imenso explorador do potencial sintático do latim, que realizou como poucos o projeto de exprimir a serenidade. Seu despojamento pressupõe uma visão de mundo avessa a cultivar a inutilidade no breve curso da vida. Além do excesso, desdenha da estridência. Evita a oscilação de humor. É um defensor intransigente do requinte que há no simples.
A poesia, como as demais expressões da arte, pretende se instaurar pela autonomia, busca ser uma voz autônoma cuja única justificativa está na realização de sua expressão. Esse é o seu princípio, e é a esse princípio motivador que o tradutor de poesia deve procurar ficar atento. Imergir em sua expressão para dela emergir, quem sabe por alguns momentos, com alguma formulação que faça jus ao original; reverente, mas não servil.
Edição Bilíngue: latim/português
Tradução: Trajano Vieira
Descrição
Apresentação
Catulo
- Cui dono lepidum novum libellum / A quem dedico o novo livro mínimo
- Passer, deliciae meae puellae, / Pardal, prazer de minha namorada,
- Passer, deliciae meae puellae, / Pássaro, distração do meu amor,
- Lugete, o Veneres Cupidinesque / Chorai, Amores, Vênus e quem for
- Vivamus, mea Lesbia, atque… / Vivamos, minha Lésbia, e…
- Quaeris quot mihi basiationes / Perguntas, Lésbia, quantos beijos teus
- Miser Catulle, desinas ineptire, / Pobre Catulo, evita insistir
- Verani, omnibus e meis amicis / Devo ter uns trezentos mil amigos,
- Furi et Aureli, comites Catulli, / Aurélio e Fúrio, sócios de Catulo,
- Marrucine Asini, manu sinistra / É feio usar, Asínio, a mão sinistra,
- Cenabis bene, mi Fabulle, apud me / Hás de jantar à farta em minha casa,
- Pedicabo ego vos et irrumabo, / Hei de enrabar os dois, meter na boca,
- O qui flosculus es Iuventiorum, / Ó flor das flores dos Juvêncios, única
- Cinaede Thalle, mollior cuniculi capillo / Talo boiola, mole mais que pelo
- Furi, villula vestra non ad Austri / O sopro do Austro, Fúrio, não fustiga
- Minister vetuli puer Falerni / Copeiro do Falerno maturado,
- Paene insularum, Sirmio,… / Ó Sírmio, joia de ilhas…
- Amabo, mea dulcis Ipsithilla, / Meu docinho de mel, minha Hipsitila,
- O furum optime balneariorum / Ó ladrão dos ladrões nos balneários,
- Salax taberna vosque… / Taberna fétida, comparsas de…
- Egnatius, quod candidos habet… / Porque o Egnácio tem os dentes…
- Quaenam te mala mens, miselle… / Que pensamento ruim, Ravido…
- Ameana puella defututa / Ameana, moça tão rodada, não
- Salve, nec minimo puella naso / Olá, garota de nariz não mínimo,
- Iam ver egelidos refert tepores, / A primavera já dissipa o gelo,
- Disertissime Romuli nepotum, / Entre os filhos de Rômulo, de quantos
- Ille mi par esse deo videtur, / Ele tem o visual de um deus, supera
- Othonis caput oppido est pusillum, / A cabecinha mínima do Otão,
- Bononiensis Rufa Rufulum fellat, / A bolonhesa Rufa chupa Rúfulo
- Etsi me adsiduo defectum cura… / Embora imerso em grave dor…
- Omnia qui magni dispexit lumina… / Quem escrutou no céu imenso…
- Noli admirari quare tibi femina… / Não te surpreendas, Rufo, se…
- Nulli se dicit mulier mea… / A mulher que me doma diz que…
- Desine de quoquam quicquam bene… / Não creias que teu bem-querer…
- Huc est mens deducta tua, mea… / De tal maneira, Lésbia, piras…
- Gallus habet fratres, quorum est… / Galo tem dois irmãos: a esposa de um…
- Quid dicam, Gelli, quare rosea… / Terá explicação por que teus…
- Lesbia mi praesente viro mala… / Na presença do esposo, Lésbia lasca…
- Quintia formosa est multis, mihi… / Tem muita gente que acha Quíncia…
- Quid facit is, Gelli, qui cum matre… / Que faz o tipo, Gélio, que com…
- Lesbia mi dicit semper male… / Lésbia só desce o pau em mim…
- Mentula moechatur. “Moechatur… / O Broca é brocha. “Brocha…
- Si quicquam mutis gratum acceptumve… / Caso a tumba silente possa…
- Multas per gentes et multa per… / Atrás deixei inumeráveis…
- Aut sodes mihi redde decem… / Ou me devolves, Silos, toda…
- Si cui quid cupido optantique… / Se alegra o coração quando algo…
- Si, Comini, populi arbitrio tua… / Se o povo decretasse o fim de…
- Saepe tibi studioso animo… / Alma de caçador, eu sempre…
Horácio
I, 4. Solvitur acris hiems grata vice… / O rude inverno cede, a primavera…
I, 7. Laudabunt alii claram Rhodon… / Outros celebrem Rodes,…
I, 8. Lydia, dic per omnis / Evoco, Lídia, os deuses:
I, 9. Vides ut alta stet nive… / Vês como em branca neve alteia…
I, 11. Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi,… / Prefere ignorar, Leucónoe,…
I, 13. Cum tu, Lydia, Telephi / Quando elogias, Lídia, o colo
I, 14. O navis, referent in mare te novi / Ó nave, ondas novas hão de
I, 17. Velox amoenum saepe… / Frequentemente o fauno arisco…
I, 18. Nullam, Vare, sacra vite prius… / Dá primazia, Varo, à plantação…
I, 19. Mater saeva Cupidinum / Mãe atroz da Volúpia, filho
I, 25. Parcius iunctas quatiunt fenestras / Nas janelas que cerras quase já
I, 27. Natis in usum laetitiae scyphis / Ao trácio apraz lutar portando a taça
I, 29. Icci, beatis nunc Arabum invides / Sonhas com as riquezas, Ício, árabes,
I, 32. Poscimus. Si quid vacui sub… / Instam-nos a cantar. Se em paz…
I, 33. Albi, ne doleas plus nimio memor / Não remoas em tua memória, Álbio,
I, 34. Parcus deorum cultor… / Cultor dos deuses infrequente…
I, 38. Persicos odi, puer, adparatus, / Detesto aparatos persas, não
II, 2. Nullus argento color est avaris / Crispo Salústio, avesso à usura, a prata
II, 3. Aequam memento rebus in arduis / Lembra de preservar a mente igual
II, 5. Nondum subacta ferre iugum valet / É ainda incapaz de submeter
II, 8. Vlla si iuris tibi peierati / Tivessem te custado algum castigo,
II, 9. Non semper imbres nubibus… / Nem sempre a chuva cai da nuvem…
II, 10. Rectius vives, Licini, neque altum / Aprumas tua vida caso não
II, 12. Nolis longa ferae bella… / Não queiras que a refrega…
II, 15. Iam pauca aratro iugera regiae / Mansões relegarão uns poucos acres
II, 16. Otium divos rogat in… / Quietude roga ao deus quem…
II, 18. Non ebur neque aureum / Nem marfim, nem o forro
III, 1. Odi profanum volgus et arceo. / Detesto gente rude e a tenho longe.
III, 15. Uxor pauperis Ibyci, / Mulher do pobre Íbico,
III, 16. Inclusam Danaen turris aenea / A torre brônzea, os sólidos portais,
III, 23. Caelo supinas si tuleris manus / Se ao céu elevas tuas mãos supinas,
III, 30. Exegi monumentum aere perennius / Ergui um monumento mais perene
IV, 2. Pindarum quisquis studet… / Quem ouse equiparar-se, Iulo,…
IV, 3. Quem tu, Melpomene, semel / Quem viste certa vez nascer,
IV, 7. Diffugere nives, redeunt… / Dissipa a neve, a grama torna…
IV, 8. Donarem pateras grataque… / Doaria com prazer o bronze…
IV, 9. Ne forte credas interitura… / Não creias que as palavras que eu,…
IV, 10. O crudelis adhuc et Veneris… / Cruel e altivo ainda pelos dons…
Informação adicional
| Peso | 0,680 kg |
|---|---|
| Dimensões | 16 × 23 × 1,7 cm |
| Ano | 2025 |
| Edição | 1a edição |
| Encadernação | Capa dura |
| ISBN | 978-65-5580-167-5 |
| Páginas | 224 |
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Autores

Caio Valério Catulo nasceu em Verona em 84 a.C. e morreu em Roma em 54 a.C. Pertencia a uma rica família da nobreza provincial e tinha relações de amizade e de hospitalidade com Júlio César. Em Roma, Catulo se ligou a um círculo de poetas de ideais estéticos comuns. Cícero, no entanto, não se simpatizava com esta escola literária e a chamava de poetae noui, dando a esta expressão um certo matiz pejorativo. Para Catulo, a verdadeira cidade devia assentar-se na sodalitas dos amigos, com suas leis, amizades e inimizades. O poeta, no entanto, coloca diante de si uma mulher pública, envolvida com a política da época, chamada por ele de Lésbia, conforme os cânones da poesia alexandrina. Lésbia será o centro do universo poético preconizado pelo poeta, o qual também pertenciam os seus amigos. A paixão imedida de Catulo levou-o a uma vida agitada, dissoluta, envolvida por tantas paixões e contrastes, terminando por arruinar-lhe a saúde e lhe trazendo a morte quando contava com apenas 30 anos.

Quinto Horácio Flaco, conhecido como Horácio, nasceu em Venúsia, posteriormente Venosa, Itália, no dia 8 de dezembro de 65 a.C. Filho de um escravo emancipado, foi funcionário público e financiou seus estudos em Roma e depois em Atenas. Após o assassinato de Júlio César, em 44 a.C., uniu-se ao grupo republicano e comandou uma legião do exército de Bruto na batalha de Filipos, na Grécia. Apesar da derrota, voltou para Roma graças a uma anistia. Passou graves dificuldades financeiras até conseguir um cargo administrativo. Começou a escrever seus versos e entrou para os círculos literários, sob a proteção do influente Caio Mecenas. Horácio foi o primeiro literato profissional romano. Ele aceitava ajuda, como a pequena propriedade nos montes Sabinos que lhe ofereceu Mecenas, mas evitava imposições que pudessem vir a afetar sua integridade. Sua obra-prima são os três livros de poemas líricos, as Odes, de 23 a.C., complementados por um quarto volume de 13 a.C. Horácio exerceu enorme influência sobre toda a literatura ocidental e sua estética se define pela precisão dos metros, pela sobriedade de expressão e pela serenidade diante da vida.

Trajano Vieira é doutor em literatura grega pela USP e professor no IEL da Unicamp, onde recebeu o título de livre-docente em 2008. Nos últimos anos dedica-se a verter criativamente para o português textos da dramaturgia clássica grega. Publicou, entre outros, Édipo Rei, de Sófocles; Édipo em Colono, de Sófocles e Agamêmnon, de Ésquilo. Colaborou com Haroldo de Campos na tradução da Ilíada, de Homero. [Foto: Mário Coutinho, São Paulo Review]

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