Trajano Vieira explica os critérios adotados na tradução de ‘Catulo & Horácio’, nova obra da Ateliê Editorial
O que apresento, a seguir, é uma antologia de poemas de Catulo e Horácio. Adotei a numeração dos poemas conforme as edições consagra das desses autores. Guiou-me o gosto pelo texto de dois grandes poetas, e não a prática acadêmica responsável por cercar essa produção com aparato erudito. Evitei o automatismo que busca espelhar, muitas vezes mecanicamente, a estrutura do original. Esse procedimento costuma ser malfadado, entre outros motivos, porque a língua declinada permite in versões sintáticas que resultam aberrantes em português. Outra estratégia recorrente, que também procurei evitar, foi a do meio termo: operar a reprodução automática, fazendo ajustes nas passagens em que o espelhamento resultasse bizarro. Parti de outro ponto: procurar capturar, reter algo da poesia esplendorosa desses dois autores. A expressão da linguagem interessou-me mais do que a submissão a categorias gramaticais.
Uma questão que me coloco com alguma frequência é a seguinte: o que fica da poesia se não se traduz a poesia? Uma hipótese é de que, em lugar da poesia, passe a existir a prosa. Às vezes, essa prosa vem dotada de algum paramento rítmico, que não chega a alterar sua natureza de prosa. Nesse caso, o ritmo parece mais uma prótese do que um elemento da linguagem. Ser mais ou menos bem sucedido no projeto de verter a poesia é algo que não cabe ao tradutor considerar, mas quem sabe Platão tenha tido razão quando escreveu: “há beleza no risco”.
A dificuldade que Catulo e Horácio impõem é diversa: o primeiro é um extraordinário poeta coloquial, claro, direto. Difícil mencionar algum outro que o tenha superado nessa linhagem. É enxuto, como o é, de maneira diferente, Horácio – o registro da dicção os distancia. A ironia é um aspecto compartilhado com Horácio, mas este expõe um labor verbal, devedor de Píndaro, que tanto admirava. A dicção de Horácio é filtrada por uma perspectiva existencial em que prevalece o apreço pelo estado de serenidade e pela consciência do caráter irreversível do tempo. Mais do que a imagética incomum, herdou de Píndaro o viés austero, ser, a um só tempo, quase paradoxalmente, despojado e raro, seco e elaborado (a eficiência de sua adjetivação é irreproduzível), caudaloso e sintético. Píndaro não esconde a consciência de que sua linguagem é incomum. Manifesta isso através do requinte e do engenho. Horácio segue na mesma direção.
Tudo para dizer, portanto, que não se trata da tradução de um especialista, mas de um leitor que, de longa data, frequenta a obra desses poetas maiores. E permito-me evocar, neste ponto, a memória de um sofisticado latinista, com quem tive o prazer de conviver, a quem devo meu primeiro contato com Catulo e Horácio, que ele conhecia como poucos. Refiro-me ao saudoso Francisco Achcar, de quem fui aluno há quase cinquenta anos atrás. Foi numa de suas aulas que ele apresentou a tradução inexcedível do “Viuamus, mea Lesbia, atque amemus”, da lavra de Haroldo de Campos. Foi o pontapé inicial que me introduziu, como amador, nesse campo. É para mim uma oportunidade, pois, de registrar minha estima e dívida intelectual com essa personalidade singular.

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Trajano Vieira é doutor em literatura grega pela USP e professor no IEL da Unicamp, onde recebeu o título de livre-docente em 2008. Nos últimos anos dedica-se a verter criativamente para o português textos da dramaturgia clássica grega. Publicou, entre outros, Édipo Rei, de Sófocles; Édipo em Colono, de Sófocles e Agamêmnon, de Ésquilo. Colaborou com Haroldo de Campos na tradução da Ilíada, de Homero.