Com a Palavra

Com a Palavra n.37: organizador da obra explica as utopias amazônicas

A abertura de rodovias cortando a Amazônia na segunda metade do século passado deu início a uma nova forma de integrar a Amazônia, esse lugar estratégico ao mundo, em uma das mais agressivas ocupações de fronteira. Uma integração que custou e ainda custa muito caro e que deixa atrás de si um cenário de devastação: grilagem de terras, violência no campo, invasão de terras indígenas e de reservas ecológicas, desrespeito às culturas locais e aos povos que há milhares de anosa protegem.

Estes são apenas alguns dos tópicos em torno dos quais Marcos Colón reuniu dezoito pesquisadoras e pesquisadores da Amazônia de várias áreas com o objetivo de provocar nos leitores e na sociedade uma reavaliação.

Aos autores foi lançado o desafio de responder à questão: o que é preciso ser feito para manter a diversidade socioambiental amazônica? Quais utopias se fazem necessárias para garantir o presente e o futuro da maior floresta tropical do mundo?

Em Utopias Amazônicasem pré-venda no sita da Ateliê Editorial, cada pensador amazônida – por nascimento ou adoção – apresenta seu diagnóstico crítico sobre o modelo de ocupação da região e como eles se relacionam com os planos de “desenvolvimento” da Amazônia. Os autores compartilham suas utopias e apresentam como a própria Amazônia pode salvar a si mesma, se a permitirem.

Neste número, os assinantes leram com exclusividade um trecho do prefácio escrito pelo organizador Marcos Colón.

Por que Utopias Amazônicas? por Marcos Colón

Em As Palavras Andantes, Eduardo Galeano conta que, numa entrevista com o amigo Fernando Birri, um jornalista perguntou a Birri para que serve a utopia. Ele respondeu assim:

Ela está no horizonte. Eu me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Eu caminho dez passos, e o horizonte se move dez passos mais adiante. Por mais que eu caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Para isso serve: para caminhar.

Ocorre que, como entendemos, as utopias amazônicas contorcem o prefixo “u” para que indique “o” lugar, visível demais como a carta de Edgar Allan Poe, escondida onde todos possam vê-la, numa nudez imensa, como uma luz que cega. Está fora porque sempre esteve presente, mas apagada por essa desordenação que, paradoxalmente, chamamos progresso – e suas “transas amazônicas” –, cujo exercício principal foi, e continua sendo, o de apagar a eternidade da floresta. O futuro é ancestral porque utopus é este lugar que sempre esteve ao alcance e que inscreve a sua destruição ao lado do fim de tudo. Utopia não mais como o não lugar, mas como o lugar total, o lugar para o qual precisamos caminhar – onde os povos originários sempre estiveram. E aí nos encontramos com o texto do professor Bruno Malheiro: “a noção de utopia” só se sustenta “pela radical existência da Amazônia”, com o adendo explicativo de que o avesso da coisa é a coisa por dentro.

Como não é mais possível que o branco colonizador desapareça e que o violento desencontro acontecido “desaconteça”, a utopia radicalmente realizada na Amazônia aguarda que a floresta, antropofagicamente, integre este “ser entre”, fruto das três raças tristes de Olavo Bilac e que Darcy Ribeiro profetizou como destinado à alegria, ao Carnaval. Este ser mestiço que transita pelo mundo – e aí, sim, fora, em qualquer lugar sem a Amazônia, porque sem a Amazônia é o não-lugar, o não-há. Fora da Amazônia, no futuro, há o império das coisas de não e vive este ser que, como um Prometeu tardio, se entendeu estar fora da natureza, quando logrou roubar o estalinho dos deuses e inventou a jovem e arrogante ciência positiva.

Diante dessa necessidade de caminhar para um futuro possível e melhor, resta-nos a pergunta: E, daqui de onde estamos, nessa ponte buscando garantir nossa permanência numa perspectiva dos povos originários e dos amazônidas, o que seria utopia? Ensaiamos.

Na utopia amazônica, ensina-se florestania a uma cidadania gostosamente enriquecida pela compreensão do que é o saber bosquesino aguacino da vida – para dialogarmos com José Manuyama. Na utopia amazônica, as cidades param de devorar o mundo e não se fala mais no extermínio dos povos tradicionais, mas no fim da espécie – para dialogarmos com Ailton Krenak. Na utopia amazônica, os povos da floresta reflorestarão o mundo cheios de cidades vazias e, como naquela peça shakespeariana, a floresta vai andar – e retomamos a Fernando Birri.

Ocorre que a tragédia (e cabe pensar que o nome Amazonas é já uma primeira ocupação imposta pelo colonizador colonizado) deixa escapar a Amazônia, que não tem fim. Mas nós, a espécie humana, nós sim findaremos. Porque sem a floresta em nós, nossa finitude se acelera. É o império das coisas de não.

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