Com a Palavra

Com a Palavra n.38: Ariano Suassuna sobre ‘Tirant lo Blanc’

A Ateliê Editorial publica a terceira edição de Tirant lo Blanc, revisada e em novo formato, agora integrada à Coleção Clássicos Comentados. A obra foi traduzida a partir da edição integral catalã, publicada em 1947 aos cuidados de Martí de Riquer, por Cláudio Giordano, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Tradução em 1999 e conta com o prólogo do Prêmio Nobel de Literatura Mário Vargas Llosa.

Este romance épico, escrito por um rei valenciano em meados do século XV, é um clássico da literatura universal e influenciou Miguel de Cervantes, que o cita em Dom Quixote de la Mancha. Narra as façanhas de um cavaleiro andante que se transforma em grande general. Dono de enorme força física, o protagonista é também um audaz e sentimental cortejador de sua dama.

Neste número, os assinantes puderam ler com exclusividade o texto escrito por Ariano Suassuna sobre a obra, publicado em 1999, na Folha de S. Paulo. O texto também está presente nesta edição de Tirant lo Blanc.

Um Editor por Ariano Suassuna

No capítulo em que, no Dom Quixote, o padre e o barbeiro começam a queimar os romances de cavalaria que tinham enlouquecido o Cavaleiro da Triste Figura, existe um trecho que sempre me intrigou. No momento em o barbeiro pega Tirante, O Branco e quer jogá-lo ao auto de fé da fogueira literária, o padre o impede, exclamando:

Passe-me cá o livro, compadre. Agirei como quem sempre encontrou nele um tesouro de satisfação e mina de passatempos. […] Por seu estilo, é este o melhor livro do mundo: aqui os cavaleiros comem, dormem, morrem em suas camas e fazem testamento antes de sua morte, com tudo o mais que falta aos demais livros deste gênero.

A partir daí é que as palavras postas por Cervantes na boca do cura me intrigavam: porque, na minha opinião, o padre as conclui de modo contraditório em relação ao começo. Na verdade, depois de considerar Tirante, O Branco como “o melhor livro do mundo”, remata-se assim o comentário:

− Por isso, digo-vos que quem o compôs, não tendo perpetrado tantas leviandades sem razão, merecia que o lançassem às galeras por todos os dias de sua vida.

Sou um velho entusiasta de novelas de cavalaria, como, entre outras, Tristão e Iseu e A Demanda do Santo Graal. Mas, até o ano passado, nunca lera Tirante, O Branco, simplesmente porque não encontrava o livro em biblioteca nenhuma. Foi aí que apareceu um editor, Cláudio Giordano, que é também um apaixonado por tais livros e que teve o bom gosto e a coragem de traduzir e editar o romance, escrito originalmente em catalão por Joanot Martorell.

Num gesto de generosidade que nunca esquecerei, Cláudio Giordano me presenteou com o livro. Li-o e fiquei encantado, entre outras coisas ao descobrir como foi grande a influência dele sobre o Dom Quixote. O melhor, porém, é que, em nota colocada antes da apresentação, Cláudio Giordano, baseado em Martí de Riquer, esclarece aquela aparente contradição de Cervantes. Lembra que, em espanhol (como em português, recorde-se), “galera” é também “uma tábua na qual o tipógrafo ia colocando as frases de um texto a ser impresso”, motivo pelo qual “lançar às galeras” pode, às vezes, significar “imprimir”. Assim, a frase do cura não configurava uma contradição: o que Cervantes estava dizendo por sua boca era que, como autor “do melhor livro do mundo”, Joanot Martorell era digno de continuar sendo impresso “por todos os dias de sua vida”.

Por tudo isso, quero mandar, daqui, meu braço a Cláudio Giordano, que, talvez sem o suspeitar, me deu, com Tirante, O Branco, uma das maiores ajudas que já recebi para levar adiante meu trabalho de escritor.

Publicado originalmente em Folha de S.Paulo, Opinião, terça-feira, 27/07/1999.

 

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