Com a Palavra

Com a Palavra n.39: organizadores falam das correspondências entre João Cabral e Alberto de Serpa

Com organização, apresentação e notas de Solange Fiuza e Arnaldo Saraiva, a Ateliê Editorial publica a obra Correspondência Inédita e Anotada: Alberto de Serpa e João Cabral de Melo Neto.

Este livro contém a correspondência entre João Cabral de Melo Neto e Alberto de Serpa. As missivas datadas de 1949 a 1950, perfazendo um total de 51 dos 60 documentos, tratam centralmente da organização da revista O Cavalo de Todas as Cores, que conheceu apenas um único número.

Essa correspondência, que vem a público com notas, textos de apresentação dos organizadores e um fac-símile da revista, permite acompanhar a “cozinha” do número publicado e os planos para números que não se concretizaram.

Também constituem fontes importantes à compreensão do posicionamento estético e ético de cada poeta, o qual tem implicações nas escolhas dos textos a saírem na revista e, ainda, no caso de Cabral, concorre para esclarecer melhor a abertura explícita de sua obra, nos anos 1950, à representação crítica e criativa de uma dada realidade social e regional.

Neste número, os assinantes leram com exclusividade o texto em que os organizadores Solange Fiuza e Arnaldo Saraiva explicam o motivo de ter publicado o livro.

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SOBRE ESTA EDIÇÃO – por Solange Fiuza e Arnaldo Saraiva

Este livro contém toda a correspondência entre João Cabral e Alberto de Serpa localizada, respectivamente, no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa, e no espólio de Alberto de Serpa, da Biblioteca Municipal do Porto. Ao todo, são sessenta documentos, sendo 28 cartas e um telegrama de Serpa, e 31 cartas e cartões-carta de Cabral. Todos os documentos, salvo o telegrama, são autógrafos manuscritos.

Os poemas, artigos em jornais, fotografia, maquete ou provas da revista em organização e outros documentos referidos nas cartas, e que as teriam acompanhado, não foram localizados nos espólios dos autores. Os poemas publicados no único número de O Cavalo de Todas as Cores estão disponíveis no encarte que acompanha este livro. Outros documentos identificados foram referidos em nota de rodapé. Pela referência a uma missiva de Cabral na carta de Serpa que abre as correspondências, seguramente, falta pelo menos uma cartado poeta brasileiro. As cartas de Cabral são escritas em diversos tipos de papel, com timbre de consulados (Barcelona ou Londres) ou não, e apresentam, frequentemente, rasuras. São cartas escritas em locais diversos, como consulado, casa de veraneio na Espanha ou na Inglaterra. Quando escritas no Consulado de Barcelona, na urgência de terminar para não “perder o correio”, no tempo roubado ao trabalho ou no afã de expressar uma ideia que vai se construindo coma escrita, aparecem frequentemente rasuras e uma letra cujo traçado evidencia a diferença entre o ritmo da mão e o do pensamento. As cartas de Serpa, escritas, sobretudo, aos domingos, quando o corretor de seguros, na casa do Porto ou de Leça da Palmeira, freguesia onde tinha um casarão, encontrava tempo para cartear e escrever poemas, trazem uma letra caprichada, são limpas e numa caligrafia que sabe a texto passado a limpo.

As missivas datadas de 1949 e 1950, perfazendo um total de 51 documentos, foram trocadas entre Porto e Barcelona, havendo também cartas de Serpa de Leça da Palmeira, e, no caso de Cabral, de Castelldefels, perto de Barcelona, e Londres, onde chega no final de setembro de 1950 para assumir seu segundo posto diplomático. Há apenas duas missivas de 1951, sendo uma enviada de Leça e outra de Londres. Em 1956, quando Cabral, depois de reintegrado ao Itamaraty, é mandado a Sevilha para realizar pesquisas sobre o Brasil no Arquivo das Índias, escreve a Serpa pedindo informações sobre historiadores portugueses que teriam realizado levantamentos nesses arquivos, restabelece-se temporariamente o diálogo epistolar entre os dois, o qual perdura apenas por cinco cartas e poucos meses. Em 1957, Cabral escreve a Serpa, de Sevilha, agradecendo-lhe elogiosamente o livro Mais uns Versos de Castela. Há ainda um telegrama de Serpa, enviado do Porto, em 1966.

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Arnaldo Saraiva nasceu em Casegas (Covilhã) em 1939. Licenciado pela Universidade de Lisboa. Doutorado pela Universidade do Porto. Professor Emérito por esta Universidade, em cuja Faculdade de Letras ensinou, como ensinou na Universidade Católica (Porto), na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, e na Universidade de Paris (Sorbonne Nouvelle). Foi presidente da Fundação Eugénio de Andrade, e é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Poeta, cronista, tradutor, ensaísta com extensa obra publicada em Portugal e noutros países, nomeadamente: Literatura Marginal izada (1975, 1980); Bilinguismo e Literatura (1975); O Modernismo Brasileiro e o Modernismo Português (1984); Fernando Pessoa Poeta-Tradutor de Poetas (1996); Folhetos de Cordel e Outros da Minha Coleção (2004); Os Órfãos do Orpheu (2015), João Cabral de Melo Neto na Poesia Portuguesa (2020); Carlos Drummond de Andrade na Poesia Portuguesa (2021); Literatura Brasileira no Porto (2024).

Solange Fiuza é professora titular da UFG e coordenadora adjunta dos programas acadêmicos de Linguística e Literatura/CAPES. Doutorou-se na UFRGS, com pesquisa que resultou no livro A Memória Lírica de Mario Quintana. Desenvolveu estágios pós-doutorais na U. Porto e na UFF, bem como na U. Coimbra e na UERJ, sempre investigando as relações poéticas Brasil-Portugal a partir do poeta João Cabral de Melo Neto. Pesquisadora do CNPq, atualmente desenvolve o projeto “João Cabral e Lauro Escorel – Correspondência”, e coordena a pesquisa interinstitucional “Geografias Culturais Ibero-americanas”. Entre suas publicações, destacam-se o livro Inventário, obra de/sobre Heleno Godoy, e as coletâneas coorganizadas Estudos de Literatura Brasileira em Portugal, Poesia Contemporânea e Tradição: Brasil-Portugal, e Interlocuções Poéticas Brasil/Portugal.

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