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Lançada pela Ateliê Editorial, cartas inéditas entre João Cabral de Melo Neto e Alberto de Serpa mostram a criação da revista literária ‘Cavalo de Todas as Cores’

Um jovem João Cabral de Melo Neto, antes da publicação de sua obra-prima Morte e Vida Severina, morando em Barcelona como vice-cônsul e com um desejo imenso de organizar e criar uma revista literária. Aos vinte e nove anos e ainda no processo de publicação de Cão Sem Plumas, Cabral, por meio de cartas, tenta convencer diversos amigos para colaborarem como editores. Escreveu para o também diplomata Lauro Escorel; ao professor e crítico literário Antonio Candido; e para os autores Manuel Bandeira e Clarice Lispector. Mas todos declinaram. Porém, foi na pessoa do escritor português Alberto de Serpa que Cabral de Melo Neto encontrou a parceria para a organização de O Cavalo de Todas as Cores, revista que teve apenas um único número publicado.

Toda essa troca de correspondência pode ser lida na mais recente publicação da Ateliê Editorial, Correspondência Inédita e Anotada: Alberto de Serpa e João Cabral de Melo Neto, organizada por Arnaldo Saraiva, Solange Fiuza. Com projeto gráfico de Gustavo Piqueira / Casa Rex, a novidade da edição é o acompanhamento de um fac-símile da revista O Cavalo de Todas as Cores, podendo o leitor conferir o resultado do único volume impresso da revista.

A partir dessa parceria editorial, o livro recorta o período de 1949 até 1957 de troca de cartas. Trocas estas que resultaram em um estudo sobre o processo de desenvolvimento de uma revista, a escolha dos autores que fariam parte da edição, a seleção dos poemas, o posicionamento ideológico e político de cada editor, o número da tiragem – no primeiro volume ficou em 200 exemplares -, as vendas, o envio para autores e intelectuais, a forma cuidadosa que a revista era enviada, pois ambos os países, Portugal e Espanha, à época, viviam intensos anos de ditadura e censura cultural. João e Alberto decidiram trazer, além dos textos em português, obras de autores nas línguas castelhano, galego e catalão. Tudo isso marca um momento curioso de ideias – mesmo que longe – e amplia o conhecimento da feitura de uma revista literária.

Outros aspectos interessantes da leitura das correspondências são as confidências dos autores pelas inseguranças no processo criativo de suas obras, os envios de livros como presentes, os endereços de célebres autores que receberam a revista, as burocracias da época, os relatos de doenças que muito prejudicaram a saúde de Cabral e seus filhos, assim como as funções fora do segmento literário dos autores-editores.

O primeiro e único número de Cavalo de Todas as Cores, que tinha como ideia ser trimestral, foi impressa pelo próprio Cabral em uma prensa manual Minerva comprada quando morou em Barcelona, trouxe na capa um cavalo tipográfico assinado por Francisco García Vilella, artista plástico catalão amigo de Cabral que já havia ilustrado Cores, Perfumes e Sons, plaquete com poemas de Baudelaire traduzidos pelo cônsul-geral do Brasil em Barcelona, Osório Dutra, e saídos pela O Livro Inconsútil, editora independente do poeta de A Educação Pela Pedra.

A revista começa por “Nove Canções Católicas”, conjunto de textos de Pedro Homem de Mello, poeta e folclorista português. Na sequência, aparece “A Bomba Atômica”, de Vinicius de Moraes. Traz também o poema “Cuatro Poetas”, do poeta, tradutor e crítico de arte catalão Rafael Santos Torroella. O volume publica ainda o texto em prosa “Poesia”, do presencista José Régio. E fecha a publicação uma nota do já mencionado tipógrafo Enric Tormo sobre “Xilografía Popular en Cataluña”, seguida de reproduções de gravuras dos séculos XVII e XVIII.

As correspondências, com notas, textos de apresentação dos organizadores constituem fontes importantes à compreensão do posicionamento estético e ético de cada poeta, o qual tem implicações nas escolhas dos textos a saírem na revista. Além disso, as cartas e a revista são registros de um importante diálogo entre os dois poetas e de um tempo de fecunda interlocução entre Brasil e Portugal.

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